sexta-feira, 20 de setembro de 2013

CRER É TAMBÉM PENSAR


John Stott não escreveu um livro grande, mas um grande livro. Este servo de Deus nos encoraja a usarmos nossas mentes a serviço de Cristo.
Boa leitura!
Crer é também pensar
John R. W. Stott
Ninguém deseja um cristianismo frio, triste, intelectualizado.
Mas será que isso significa que temos que evitar a todo custo o “intelectualismo”? Não é a experiência o que realmente importa, e não a doutrina? Muitos estudantes fecham suas mentes ao fecharem seus livros, convencidos de que ao intelecto compete apenas um papel secundário, se tanto, na vida cristã. Até que ponto têm eles razão? Qual é o lugar da mente na vida do cristão iluminado pelo Espírito Santo?
Tais perguntas são de vital importância prática, e afetam todos os aspectos de nossa fé. Por exemplo, até que ponto devemos apelar à razão das pessoas em nossa apresentação do evangelho? 
A “fé” implica algo completamente irracional? O senso comum tem algum papel a desempenhar na conduta do cristão?
Tendo esses e outros problemas em vista, o Rev. John Stott aborda neste livreto o lugar da mente na vida cristã. explica por que o uso da mente é tão importante para o cristão, e como se aplica em aspectos práticos de sua vida. E faz um vigoroso apelo aos cristãos para mostrarem “uma devoção inflamada pela verdade”.
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CRISTIANISMO DE MENTE VAZIA

O que Paulo escreveu acerca dos judeus não crentes de seu tempo poderia ser dito, creio, com respeito a alguns crentes de hoje: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Muitos têm zelo sem conhecimento, entusiasmo sem esclarecimento. Em outras palavras, são inteligentes, mas faltam-lhes orientação.
Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo. É como ouvi certa vez o Dr. John Mackay dizer, quando era presidente do Seminário de Princeton: “A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação”.
O espírito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os programatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer ideia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”. Os Jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo. Um universitário de Melbourne, Austrália, ao assistir a uma conferência na Suécia, soube que um movimento de protesto estudantil começara em sua própria universidade. Ele retorcia as mãos, desconsolado. “Eu devia estar lá”, desabafou, “para participar.
O protesto é contra o que?” Ele tinha zelo sem conhecimento.
Mordecai Richler , um comentarista canadense, foi muito claro a esse respeito: “O que me faz Ter medo com respeito a esta geração é o quanto ela se apóia na ignorância. Ser o desconhecimento geral continuar a crescer, algum dia alguém se levantará de um povoado por aí dizendo Ter inventado... a roda”.
Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. Vou dar alguns exemplos.
Os católicos quase sempre têm dado uma grande ênfase no ritual e na sua correta conduta. Isso tem sido, pelo menos, uma das características tradicionais do catolicismo, embora muitos católicos contemporâneos (influenciados pelo movimento litúrgico) prefiram o ritual simples, para não dizer o austero. Observe-se que o cerimonial aparente não deve ser desprezado quando se trata de uma expressão clara e decorosa da verdade bíblica. O perigo do ritual é que facilmente se degenera em ritualismo, ou seja, numa mera celebração em que a cerimônia se torna um fim em si mesma, um substituto sem significado ao culto racional.
Por outro lado, há cristãos radicais que concentram suas energias na ação política e social. A preocupação do movimento ecumênico não é mais ecumenismo em si, ou planos de união de igrejas, ou questões de fé e disciplina; muito pelo contrário, preocupa-se com problema de dar alimento aos famintos, casa aos que não tem moradia; com o combate ao racismo, com os direitos dos oprimidos; com a promoção de programas de ajuda aos países em desenvolvimento, e com o apoio aos movimentos revolucionários do terceiro mundo. Embora as questões da violência e do envolvimento cristão na política sejam controvertidos, de uma maneira geral deve-se aceitar que luta pelo bem estar, pela dignidade e pela liberdade de todo homem, é da essência da vida cristã. Entretanto, historicamente falando, essa nova preocupação deve muito de seu ímpeto à difundida frustração de que jamais se alcançará um acordo em matéria de doutrina. O ativismo ecumênico desenvolve-se com reação à tarefa de formulação teológica, a qual não pode ser evitada, se é que as igrejas neste mundo devam ser reformadas e renovadas, para não dizer, unidas.
Grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais séria, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo.
Um dos líderes desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa” não é a doutrina, mas a experiência”. Isso equivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão inteligente a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem. Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que ele próprio criou.
Estas três ênfases - a de muitos católicos no ritual, a de radicais na ação social, e a de alguns pentecostais na experiência - são, até certo ponto, sintomas de uma só doença, o anti-intelectualismo.
São válvulas de escape para fugir à responsabilidade, dada por Deus, do uso cristão de nossas mentes.
Num enfoque negativo, eu daria como substituto este trabalho “a miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”. Mais positivamente, pretendo apresentar resumidamente o lugar da mente na vida cristã. Passo a dar uma visão geral do que pretendo abordar. No segundo capítulo, a título de introdução, apresentarei alguns argumentos - tanto seculares como cristãos - a favor da importância do uso de nossas mentes. No terceiro, constituindo a tese principal, descreverei seis aspectos da vida e responsabilidade cristãs, nos quais a mente tem uma função indispensável. Concluindo , procurarei prevenir contra o extremo oposto, também perigoso, de abandonar um anti-intelectualismo superficial para cair num árido super-intelectualismo. Não estou em defesa de uma vida cristã seca, sem humor, teórica, mas sim de uma viva devoção inflamada pelo fogo da verdade. Anseio por esse equilíbrio bíblico, evitando-se os extremos do fanatismo. Apressar-me-ei em dizer que o remédio para uma visão exagerada do intelecto não é nem depreciá-lo , nem negligenciá-lo, mas mantê-lo no lugar indicado por Deus, cumprindo o papel que ele lhe deu.
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Por que os cristãos devem usar suas mentes?

A primeira razão se apresentará a todo crente que deseja ver o evangelho proclamado e Jesus Cristo reconhecido no mundo todo. Trata-se do poder do pensamento humano na concretização de ações. A História está repleta de exemplos da influência que grandes idéias exercem. Todo movimento de poder teve a sua filosofia que se apossou da mente, inflamou a imaginação e capacitou a devoção de seus seguidores. Basta pensar nos manifestos fascista e comunista do século passado, na obra “Mein Kampf” de Hitler, de um lado, e no “Das Kapital” de Marx e “Pensamentos” de Mao, do outro. A. N. Whitehead resume isso da seguinte forma: Uma grande parte do mundo é atualmente dominada por ideologias que, se não completamente falsas, são estranhas ao evangelho de Cristo. Apregoamos “conquistar” o mundo para Cristo. Mas que espécie de “conquista” temos em mente? Certamente que não uma vitória baseada na força das armas.
Nossa cruzada cristã diferencia-se completamente das vergonhosas cruzadas da Idade Média. Observemos a descrição que Paulo faz dessa batalha: “Na verdade, as armas com que combatemos não são carnais, mas têm, a serviço de Deus, o poder de destruir fortalezas. Destruímos os raciocínios presunçosos e todo poder altivo que se levanta contra o conhecimento de Deus. Tornamos cativo todo pensamento para levá-lo a obedecer a Cristo”. Esta é uma batalha de idéias, a verdade de Deus vencendo as mentiras dos homens. Será que acreditamos no poder da verdade?
Não muito tempo depois que a Rússia brutalmente reprimiu a revolta húngara de 1956, o Sr. Kruschev referiu-se ao precedente dado pelo Czar Nicolau I, que comandara combate à revolta húngara de 1848.
Num debate sobre a Hungria, travado na Assembléia Geral das Nações Unidas, Sir Leslie Munro citou as observações feitas por Kruschev e concluiu seu discurso relembrando uma declaração feita por Lord Palmerston na Casa dos  Comuns em 24 de julho de 1849, com respeito ao mesmo assunto. Palmerston tinha dito o seguinte: “As opiniões são mais fortes que os exercícios. Se fundadas na verdade  e na justiça, as opiniões ao fim prevalecerão sobre as baionetas da infantaria, os tiros da artilharia e as cartas da cavalaria”...  Deixando de lado exemplos seculares do poder do pensamento, passo  agora a abordar algumas razões, mais propriamente cristãs, pelas quais devemos fazer uso de nossas mentes. Meu argumento agora é que nas doutrinas básicas da fé cristã, doutrinas da criação, revelação, redenção e  juízo, em todas elas está implícito que o homem tem um duplo e inalienável  dever: o de pensar e o de agir de conformidade com o seu pensamento e  conhecimento.

CRIADO PARA PENSAR

Começo com a criação. Deus fez o homem à sua própria imagem, e um  dos aspectos mais nobres da semelhança de Deus no homem é a capacidade  de pensar. É verdade que todas as criaturas infra-humanas têm cérebro, alguns  rudimentos, outros mais desenvolvidos. O Sr. W.S. Anthony, do Instituto de Psicologia Experimental de Oxford, apresentou um trabalho perante a  Associação Britânica, em setembro de 1957, no qual descreveu algumas  experiências com ratos. Ele pôs obstáculos às entradas que continham  alimento e água, frustrando-lhes as tentativas de encontrar o caminho naquele  labirinto. Descobriu que, diante do labirinto mais complicado, seus ratos demonstraram o que ele denominou de “dúvidas intelectual primitiva”! Isso  bem pode ser verdade. Todavia, mesmo que algumas criaturas tenham  dúvidas, somente o homem tem o que a Bíblia chama de “entendimento”.
A Escritura assegura e evidencia isso a partir do momento da criação do  homem. Em Gênesis 2 e 3 vemos Deus comunicando-se com o homem de um  modo segundo o qual Ele não se comunica com os animais. Ele espera que o homem colabore consigo, consciente e inteligentemente, no cultivo e na conservação do jardim em que o colocara , e que saiba diferenciar- tanto  racional como moralmente - entre o que lhe é permitido e o que lhe proibiu  de fazer. Ainda mais, Deus chama o homem para dar nomes aos animais,  simbolizando assim o senhorio que lhe dera sobre essas criaturas. E Deus cria  a mulher de maneira tal que o homem imediatamente a reconhece como  companheira idônea de sua vida, e então irrompe espontaneamente primeiro  poema de amor da História!
Esta racionalidade básica do homem, por criação, é admitida em toda a  Escritura. Na realidade, sobre esse fato se apóia o argumento normal que,  sendo o homem diferente dos animais, ele deve comportar-se também  diferentemente. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento”.  Em conseqüência, o homem é escarnecido e repreendido quando o seu  comportamento é mais bestial que humano (“eu estava embrutecido e  ignorante; era como um irracional à tua presença”), e quando a conduta de  animais é mais humana que a de alguns homens. Pois que às vezes os animais  de fato superam os homens. As formigas são mais trabalhadoras e mais previdentes que o folgadão. Os bois e jumentos muitas vezes dão a seus donos  um reconhecimento mais obediente do que o povo Deus ao Senhor. E os  pássaros migratórios são melhores no arrependimento, já que quando partem  em migração sempre retornam, enquanto que muitos homens que se desviam  não conseguem voltar.
O tema é claro e desafiador. Há muitas semelhanças entre o homem e os animais. Mas os animais foram criados para se conduzirem por instinto, enquanto que os homens (apesar dos “behavioristas”), por escolha racional. Dessa forma os homens, ao deixarem de agir racionalmente, procedendo por instinto à semelhança dos animais, estão se contradizendo, contradizendo sua criação e sua diferenciação como seres humanos, e devem Ter vergonha de  si próprios.
De fato é verdade que a mente do homem está afetada pelas devastadoras conseqüências da Queda. A “depravação total” do homem significa que cada parte constituinte da sua humanidade foi, até certo ponto,  corrompida, inclusive sua mente, a qual a Escritura descreve como  “obscurecida”. Com efeito, quanto mais os homens reprimem a verdade de  Deus que reconhecem, mais “fúteis”, ou mesmo “insensatos” se tornam no  seu pensar. Podem declarar-se sábios, mas são tolos. A mente deles é a  “mente da carne”, a mentalidade de uma criatura decaída, e é basicamente hostil a deus e à sua lei.
Tudo isso é verdade. Mas o fato de que a mente do homem é decaída  não nos pode servir de desculpa para batermos em retirada, passando do  pensamento à emoção, já que o lado emocional da natureza humana está  igualmente decaído. De fato, o pecado traz mais efeitos perigosos à nossa  faculdade de sentir do que à nossa faculdade de pensar, porque nossas opiniões são mais facilmente controladas e reguladas pela verdade revelada  do que nossas experiências.
Assim, pois, apesar do estado decaído da mente humana, ainda o homem lhe é ordenado pensar e usar sua mente, na condição de criatura humana que é. Deus convida o Israel rebelde. “Vinde, pois , e arrazoemos,  diz o Senhor”. E Jesus acusou as multidões descrentes, inclusive os fariseus e  saduceus, por poderem interpretar as condições meteorológicas e preverem o tempo, mas não poderem interpretar “os sinais dos tempos” nem preverem o julgamento de Deus. “Por que perguntou-lhes. Em outras palavras: por que  não usais os vossos cérebros? Por que não aplicais ao campo moral e  espiritual o sentido comum que empregais no físico?”
A sociedade secular, por esse mundo a fora, concorda com o ensino da Escritura acerca da racionalidade básica do homem, constituída em sua  criação e não de todo destruída na Queda. Os propagandistas podem dirigir os seus apelos promocionais aos nossos apetites mais baixos, mas eles não têm nenhuma dúvida de que temos a capacidade de distinguir entre produtos: de fato, muitas vezes até mesmo chegam a lisonjear o consumidor que discrimina. Quando sai a primeira notícia de um crime, geralmente ela vem com a frase “o motivo ainda não foi descoberto”. Pressupõe-se, como se vê ,  que mesmo a ação criminosa tem uma motivação, seja ela qual for. E quando  nossa conduta é mais emocional do que racional, ainda assim insistimos em “racionalizá-la”. O próprio processo chamado “racionalização” é significativo. Indica que o homem de tal forma se constituiu num ser racional  que quando não tem razões para a sua conduta ele tem que inventar alguma  para se satisfazer.

PENSANDO OS PENSAMENTOS DE DEUS

Passo agora do argumento da criação para o da revelação. Os fatos  simples e gloriosos - que Deus é um Deus que se revela a si próprio, e que  Ele se revelou ao homem - demonstram a importância de nossas mentes. Pois  eu toda a revelação de Deus é racional, tanto a revelação geral na natureza  como sua revelação especial nas Escrituras e em Cristo. Consideremos a natureza. “Os céus proclamam a glória de Deus e o  firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há  palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz  ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo”. Ou seja, Deus  fala aos homens através do universo que criou, e proclama sua glória divina,  conquanto seja uma mensagem sem palavras. A mensagem é muito clara, no entanto, e os que rejeitam sua verdade são culpados diante de Deus. “Portanto  o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes  manifestou.
Porque os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio  do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis. Porquanto, tendo conhecimento de Deus  não o glorificaram como Deus...”
 Estas duas passagens referem-se à revelação que Deus faz de si mesmo através da ordem criada. Embora seja uma proclamação sem palavras, uma voz sem som, mesmo assim resulta que todo homem tem algum “conhecimento de Deus”. Está pressuposto aí que o homem tem capacidade para ler o que Deus escreveu no universo, e isso é extremamente importante. Toda a pesquisa científica apóia-se nessa pressuposição, na correspondência entre o caráter do que está sendo investigado e a mente de quem investiga.  Essa correspondência é a racionalidade. O homem pode compreender os processos da natureza. Eles não são misteriosos; deve-se ao Criador que, tanto  nela como neles, expressou a Sua mente. Em decorrência, de acordo com as famosas palavras de Kepler, os homens “podem pensar segundo os  pensamentos de Deus”. Essa mesma importante correspondência é ainda mais direta entre a  Bíblia e quem a lê. Pois que nela e através dela Deus tem falado, isto é, tem se comunicado por meio de palavras. Se concordamos que na natureza a  revelação de Deus é visualizada, na Escritura é verbalizada, e em Cristo é  tanto uma coisa como a outra, pois Ele é “a Palavra que se fez carne”. Ora, a comunicação com palavras pressupõe uma mente que as possa entender e interpretar, pois as palavras não passam de símbolos sem significado a menos  que sejam decifradas por um ser inteligente.
Assim, o segundo motivo cristão pelo qual a mente humana é importante é que o cristianismo é uma religião revelada. Creio que quem  melhor expressou esse ponto foi James Or em seu livro“The Cristian View of God and the World” A Visão Cristã de Deus e do Mundo): Se há uma religião neste mundo que dê relevância ao ensino, sem  dúvida tal religião é a de Jesus Cristo. Com freqüência já se tem destacado o  fato de que a doutrina tem uma mínima importância nas religiões não-cristãs; nelas o destaque está na realização de um ritual. Mas é precisamente nisto que o cristianismo se diferencia das demais religiões: ele tem doutrina.  Ele se apresenta aos homens com um ensinamento definido, positivo, declara-se ser a verdade; nele o conhecimento dá suporte à religião, conquanto seja um conhecimento somente acessível sob condições morais... Uma religião divorciada do pensamento diligente e elevado tem tido, através de toda a  história da igreja, a tendência de se tornar fraca, estéril e nociva; por outro  lado, o intelecto desprovido de seus direitos no âmbito da religião, tem  procurado sua satisfação fora, e desenvolvido um materialismo sem Deus. É certo que alguns chegaram à conclusão oposta. Já que o homem é  finito e decaído, argumentam, já que não pode descobrir Deus através de sua  mente, tendo Deus que se revelar por Si, então a mente não é importante.  Mas não! A doutrina cristã da revelação, ao invés de fazer da mente algo desnecessário, na verdade a torna indispensável e a coloca no seu devido lugar. Deus se revelou por intermédio de palavras às mentes humanas. Sua revelação é uma revelação racional a criaturas racionais. Nosso dever é receber sua mensagem, submetermo-nos a ela, esforçamo-nos por compreendê-la e relacionarmo-la com o mundo em que vivemos. O fato de que Deus precisa tomar a iniciativa para revelar-se a nós mostra-nos que nossas mentes são finitas e decaídas; por Ele preferir revelar-se às criancinhas, vemos que temos de nos humilhar para recebermos sua Palavra; o mero fato de que se revelou, por meio de palavras, mostra-nos que nossas mentes são capacitadas para o entendimento. Uma das mais elevadas e  mais nobres funções da mente humana é ouvir a Palavra de Deus, e assim ler  a mente de Deus e pensar conforme seus pensamentos, tanto pela natureza  como pela Escritura. Atrevo-me a dizer que quando falhamos no uso de nossas mentes e descemos ao nível dos animais, Deus se dirige a nós , como o fez a Jó quando  o encontrou enchafurdado em auto-piedade, insensatez e lamentações  amargas: “Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei e tu me responderás”.

MENTES RENOVADAS

Passamos agora da doutrina da revelação à doutrina da redenção, redenção realizada por Deus através da morte e ressurreição de Jesus Cristo.  Tendo Deus executado esta redenção através do seu Filho, agora a anuncia por intermédio de seus servos. De fato, a proclamação do evangelho -  também feita por palavras dirigidas às mentes humanas - é o principal meio provido por Deus para dar a salvação aos  pecadores.
Paulo assim se expressa  quanto a isso:
Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua  própria sabedoria, aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação”.
Note-se com cuidado o contraste que o apóstolo faz. Não é entre uma  apresentação racional e um não-racional , como se fosse o caso de Deus Ter  posto de lado por completo uma mensagem racional, em virtude da sabedoria  humana ser impotente para encontrar a Deus. Não. O que Paulo contrasta com  a sabedoria humana é a revelação divina. Mas nossa pregação é uma revelação racional, o enigma de Cristo crucificado e ressurreto. Pois conquanto as mentes dos homens estejam em trevas e seus olhos estejam  cegos, conquanto os não-regenerados não possam por si próprios receber o  compreender coisas espirituais “porque elas se discernem espiritualmente”,  nem por isso o evangelho deixa de ser levado às suas mentes, porque tal é o  meio previsto por Deus para abrir-lhes os olhos, iluminar-lhes as mentes e salvá-los. Terei mais a dizer sobe isso ao tratar da evangelização.
Pois bem, a redenção traz consigo a reconstituição da imagem divina no  homem, a qual fora distorcida na Queda. Nessa reconstituição inclui-se a  mente. Paulo pôde descrever os convertidos do paganismo dizendo: “e vos  revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou e também: “aprendestes a Cristo... no sentido  de que... vos renoveis no espírito do vosso entendimento”. Ele pode ir ainda  mais longe. Um homem “espiritual”, no qual habita o Espírito Santo e que por Ele é dirigido, tem novos poderes para o discernimento espiritual. Dele pode-se mesmo dizer que tem “a mente de Cristo”.
Esta convicção de que os cristãos têm novas mentes fez com que Paulo  apelasse confiantemente a seus líderes: falo como a criteriosos, julgai vós  mesmos o que digo”.
Ás vezes me ponho a pensar sobre de que maneira o apóstolo reagiria se hoje viesse visitar a cristandade ocidental. Acho que lamentaria a falta de  uma mente cristã nos dias de hoje, como o fez recentemente Harry Blamires.  Uma “mente cristã”, como a descreve o Sr. Blamires, é “uma mente treinada,  informada, equipada para manusear os dados de uma controvérsia secular dentro de um quadro de referência constituído por pressuposições cristãs”, por  exemplo, pressuposições quanto ao sobrenatural, quanto à universalidade do mal, quanto à verdade, autoridade e valor da pessoa humana. O pensador  cristão, continua ele, desafia os preconceitos correntes... perturba os complacentes... se antepõe aos ativos pragmatistas... questiona as bases de  tudo que lhe diz respeito e... faz-se incômodo”. Mas, prossegue, hoje em dia parece não existir pensadores cristãos com uma mente cristã. Pelo contrário”:
“A mente cristã tem-se deixado secularizar num grau de debilidade e  de forma tão despreocupada sem paralelos na história cristã. Não é fácil achar as palavras certas para exprimir a completa perda de moral intelectual  na igreja do século vinte. Não se pode caracterizar este fato sem recorrer a  uma linguagem que parecerá ser histérica e melodramática. Não existe mais uma mente cristã. Ainda há, certamente, uma ética cristã, uma prática cristã  e uma espiritualidade cristã... Mas na condição de um ser que pensa, o  cristão moderno já sucumbiu à secularização”.
Trata-se de uma triste negação de nossa redenção por Cristo, a respeito  de quem se diz que “se nos tornou da parte de Deus sabedoria”.

JULGADOS POR NOSSO CONHECIMENTO

A Quarta doutrina cristã na qual está implícita a importância da mente é  a doutrina do juízo de Deus. Pois um ponto é bastante claro no ensinamento  bíblico quanto ao juízo: que Deus nos julgará pelo nosso conhecimento e pela  nossa atitude em resposta (ou pela falta desta) à sua revelação.
Tomemos como um exemplo do Velho Testamento o livro de Jeremias.
Jeremias profetizou pela palavra do Senhor, com grande coragem e com uma  persistência inabalável que, a menos que o povo atendesse à voz de Deus, a  nação, a cidade e o templo seriam destruídos. Mas, em vez de atenderem, fecharam os seus ouvidos, ficaram inflexíveis , e endureceram a cerviz. Essas  são algumas frases-chaves do livro. Temos aí alguns exemplos.
Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito, até hoje,  enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias, começando de  madrugada, eu os enviei. Mas não me deste ouvidos nem me atendestes;  endurecestes a cerviz e fizeste pior do que vossos pais.
...ordenei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito..., dizendo: Daí ouvidos à minha voz, e fazei tudo segundo o que vos mando;  assim vós me sereis a mim por povo, eu vos serei a vós por Deus... Porque  deveras advertia a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, até o  dia de hoje, testemunhando desde cedo cada dia, dizendo: Daí ouvidos à minha voz. Mas não atenderam nem inclinaram os seus ouvidos, antes  andaram cada um segundo a dureza do seu coração maligno.
Durante vinte e três anos... tem vindo a mim a palavra do Senhor, e,  começando de madrugada, eu vo-la tenho anunciado; mas vós não escutastes.  Também, começando de madrugada, vos enviou o Senhor todos os seus  servos, os profetas, mas vós não escutastes, nem inclinastes os vossos ouvidos  para ouvir...
Viraram-me as costas, e não o rosto; ainda que eu, começando de madrugada, os ensinava, eles não deram ouvidos, para receberem a advertência.
Mesmo depois de Jerusalém ter sido destruída por Nabucodozor e o  desventurado Jeremias, com relutância, Ter sido levado ao Egito, continuou  ele a advertir a seus compatriotas judeus quanto ao juízo de Deus diante da  perversidade do seu povo.
Todavia começando eu de madrugada, lhes tenho enviado os meus servos , os profetas, para lhes dizer: Não façais esta coisa abominável que  aborreço. Mas eles não obedeceram, nem inclinaram os ouvidos...
Este princípio de juízo foi endossado pelo próprio Senhor Jesus:
“Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia”.
E a base do argumento do apóstolo Paulo nos primeiros capítulos de  sua cata aos Romanos é que todos os homens são culpados diante de Deus precisamente porque todos possuem algum conhecimento - os judeus por  meio da lei de Deus escrita, e os gentios por meio da natureza e da lei de Deus  em seus corações - mas ninguém viveu de acordo com esse conhecimento.
É um pensamento solene o de que, com o nosso anti-intelectualismo, tanto nos oponho como não nos incomodando com o ouvir a palavra de Deus, poderemos estar preparando para nós o juízo do Deus Todo-Poderoso.
Tentei mostrar como a racionalidade humana tem uma importância fundamental nas doutrinas básicas da criação, revelação, redenção e juízo.  Deus nos constituiu como seres que pensam; Ele nos tratou como tais, comunicando-se conosco com palavras; ele nos renovou em Cristo e nos deu a mente de Cristo; e nos considerará responsáveis pelo conhecimento que temos.
Talvez se comece a ver agora o mal que é essa disposição anti-intelectualista, cultivada em alguns grupos cristãos. Não se trata de uma verdadeira devoção, absolutamente; mas sim de uma conformação a uma onda deste mundo, ou seja, trata-se de uma forma de mundanismo.
Subestimar a mente é soterrar doutrinas cristãs fundamentais. Deus nos criou  seres racionais; será justo negarmos a humanidade que Ele nos deu? Deus  conosco se comunicou; não procuraremos entender suas palavras? Deus  renovou nossa mente por intermédio de Cristo; não faremos uso dela? Deus  nos julgará por sua Palavra; não seremos prudentes, construindo nossa casa  sobre essa rocha?
Em vista dessas doutrinas, não é de se surpreender a descoberta de  quantas ênfases a Escritura - tanto no Velho como no Novo Testamento - coloca obtenção de conhecimento e sabedoria. No Antigo Testamento Deus se  queixava de que seu povo se comportava como “filhos néscios, e não  entendidos”, e declarava que “o meu povo está sendo destruído, porque lhe  falta o conhecimento”. Toda a literatura de sabedoria do Velho Testamento  lhes fora dada para enfatizar que apenas “os loucos aborrecem o conhecimento “ e que somente o sábio é na verdade feliz, pois que tendo  adquirido sabedoria, possui algo “melhor do que o ouro” e mais precioso do  que pérolas”.
De igual forma, no Novo Testamento uma boa parte das instruções dos apóstolos foi dirigida no sentido de adquirirmos a sabedoria divina,  aplicando-a numa vida santa. “Reunindo toda vossa diligência”, escreveu  Pedro, “associai com a vossa fé a virtude; com a virtude , o conhecimento...” “Expomos sabedoria entre os experimentados”, escreveu Paulo, e prosseguiu  censurando os coríntios pela imaturidade que tinham. Eram ainda como  bebês, disse, que necessitavam de leite incapazes que eram de ingerir o alimento sólido da sabedoria do alto.
Dessa forma, o principal motivo das orações de Paulo com respeito às  jovens igrejas e seus membros era que crescessem em conhecimento e que o  Espírito Santo, o Espírito da verdade, exercesse o seu ministério entre eles e com eles.
Para os de Éfeso ele orou “que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o  Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno  conhecimento dele, iluminando os olhos do vosso entendimento, para  saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da  sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os  que cremos...
“Mais adiante, nesta mesma carta, ele orou que “sejais fortalecidos com  poder, mediante seu Espírito no homem interior; e assim habite Cristo nos  vossos corações, pela fé, “Por quê? Eis a razão: “estando vós arraigados e  alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos,  qual é a largura, e o comprimento , e a altura, e a profundidade , e conhecer o  amor de Cristo que excede todo entendimento , para que sejais tomados de  toda plenitude de Deus”.
Pelos filipenses, orou: “que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes  e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo, cheios de frutos de  justiça...
Pelos colocensses, orou: “que transbordeis de pleno conhecimento da sua  vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de  modo digno do Senhor , para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa  obra , e crescendo no pleno conhecimento de Deus”.
A repetição dos termos conhecimento, sabedoria, percepção e entendimento é mesmo impressionante. Não resta dúvida que o apóstolo considerava tais pontos a própria base da vida cristã.

A MENTE NA VIDA CRISTÃ

Estamos agora em condições de considerar os motivos segundo os quais  Deus deseja que usemos nossas mentes. Não é o meu propósito aqui argumentar pela aquisição de conhecimento “secular” ou de “cultura”,  mas  sim tocar em seis esferas da vida cristã, cuja realização seria impossível sem o  uso adequado da mente. Examinaremos o culto cristão, a fé cristã, a santidade cristã, a direção cristã, a evangelização cristã e o ministério cristão, nessa  ordem.

O CULTO VERDADEIRO

Gosto muito daquele caso que um ministro americano, o já falecido Dr.  Rufus M. Jones, costumava contar. Ele acreditava na importância do intelecto  na pregação. Porém um membro de sua congregação fez objeção a essa ênfase  e escreveu-lhe queixando-se:
“Quando vou à igreja”, disse em sua crítica,  “sinto-me como se tivesse desenrolando a minha cabeça e a colocando por  sob o assento , pois numa reunião religiosa não tenho necessidade alguma de  usar o que se acha acima do meu colarinho!
“Prestar culto dessa forma, sem fazer uso da mente, certamente é o que  se fazia na cidade pagã de Atenas, onde Paulo encontrou um altar dedicado  “ao deus desconhecido”. Mas essa forma de culto não serve para os cristãos.  O apóstolo não se sentira satisfeito em deixar os atenienses em sua  ignorância. Prosseguiu proclamando-lhes a natureza e as obras do Deus que cultuavam na ignorância. Pois sabia que somente o culto inteligente é  aceitável por Deus, o culto verdadeiro, o culto prestado por aqueles que  conhecem a quem adoram, e que o amam “de todo o entendimento”.
Os salmos eram o grande hinário da igreja do Velho Testamento, e hoje  em dia ainda são cantados nos cultos cristãos. Neles temos, pois, um meio de  sabermos como deve ser o culto verdadeiro. A definição básica de culto nos  Salmos é “louvar o nome do Senhor”, ou “tributar ao Senhor a glória devida  ao eu nome”. E ao inquirirmos o que significa o seu “nome”, verificaremos  que é a soma total de tudo o que ele é e fez.
Em particular, ele é cultuado nos  Salmos tanto como o Criador do mundo como o Redentor de Israel, e os  salmistas se comprazem em adorá-lo dando uma lista enorme das obras de  Deus, relativas à criação e à redenção.
O Salmo 104, por exemplo, expressa a incontável maravilha da sabedoria e Deus em suas múltiplas obras no céu e na terra, na vida animal e  vegetal, entre as aves, os mamíferos e os “seres sem conta” existentes em  abundância nos mares e grandes oceanos.
O Salmo 105, por outro lado, exalta um outro aspecto das “obras maravilhosas” de Deus, a saber, o tratamento especial que dedicou ao povo da  sua aliança. Narra a história dos séculos, as promessas e Deus a Abraão,  Isaque e Jacó; sua providência para com José do Egito, tirando-o da prisão  para a honrosa posição de grande senhor; seus atos poderosos feitos através de  Moisés e Arão, enviando as pragas e libertando o povo; sua provisão àquela gente no deserto e o seu poder que fez com que herdassem a terra prometida.  O Salmo 106 repete em grande parte a mesma história, mas enfoca desta vez a  paciência de Deus com o seu povo, que vivia se esquecendo de suas obras,  desobedecendo suas promessas e se rebelando contra seus mandamentos.
O Salmo 107 louva a Deus pelo seu permanente amor, que vem de encontro às necessidades de diferentes grupos de pessoas: de viajantes perdidos no deserto, de prisioneiros desfalecendo em calabouços, de enfermos  à beira da morte, de navegantes apanhados numa grande tempestade. Todos  estes “na sua angústia clamaram ao Senhor e Ele os livrou das suas tribulações”. Assim, “rendam graças ao Senhor por sua bondade e por suas  maravilhas para com os filhos dos homens!
“Meu último exemplo é o Salmo 136. Aqui o mesmo refrão litúrgico se  repete em cada versículo: “porque a sua misericórdia dura para sempre”. E as  chamadas para render graças ao Senhor por Sua bondade começam com a Sua  criação dos céus, da terra, do sol, da lua e das estrelas, prosseguindo daí com  a Sua redenção de Israel do Egito, e com os reis amorreus, a fim de dar-lhes  Sua terra em herança.
Bastam estes exemplos para mostrar que Israel não cultuava a Deus na  forma de uma divindade distante ou abstrata, mas como o Senhor da natureza  e das nações, como alguém que se revelara através de atos concretos , criando  e mantendo o seu mundo, redimindo e preservando  o seu povo. Israel tinha  bons motivos para adorá-lo pela sua bondade, por suas obras e por “todos os seus benefícios”.
A estes poderosos feitos de Deus (o Deus criador e o Deus da aliança),  os cristãos acrescentam o ato de Deus mais poderoso do que todos os demais:  o nascimento, a vida, a morte e a glorificação de Jesus; o seu Dom do Espírito  Santo; e a sua nova criação, a Igreja.
Esta é a história do Novo Testamento, e  é por isso que tanto os textos do Velho como do Novo Testamento, juntos,  com uma exposição bíblica, constituem hoje uma parte indispensável do culto  cristão.
Somente quando de novo ouvimos sobre o que Deus já fez encontramo-nos em condições de retribuir-lhe com a nossa adoração e o nosso culto. É  também por este motivo que a leitura e a meditação da Bíblia são uma parte  muito importante na devoção pessoal do cristão.
Todo culto cristão, seja ele  público ou pessoal, deve ser uma resposta inteligente à auto-revelação de  Deus, por suas palavras, e suas obras registradas nas Escrituras.
É neste contexto que, de passagem, se pode fazer uma referência ao  “falar em outras línguas”. Qualquer que tenha sido a glossolalia no Novo  Testamento - se um Dom de línguas estranhas ou a expressão de sons em  êxtase - o certo é que as palavras eram ininteligíveis a quem as proferia. Por  isso mesmo foi que Paulo proibiu falar em línguas em público, se não houvesse quem traduzisse ou interpretasse; e desencorajou a sua realização ou  devoção pessoal, se a pessoa permanecesse sem entender o que dizia.  Escreveu ele: “Pelo que, o que fala em outra língua, ore para que a possa  interpretar. Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas  a minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente...
“Noutras palavras, Paulo não podia admitir nenhuma oração, nenhum  culto, em que a mente permanecesse estéril ou inativa. Ele insistiu que em  todo culto verdadeiro a mente tem de ser completamente empenhada, de  modo a dar frutos. O prazer dos coríntios para com o culto ininteligível era  algo infantil. Quanto ao mal, disse-lhes para serem como crianças e inocentes  o quanto fosse possível, mas acrescentou: “no modo de pensar, sejam  adultos”.
O culto cristão não será perfeito senão no céu, pois até então conheceremos a Deus como Ele é, e daí somente então teremos condições de adorá-lo de maneira própria.

FÉ: UMA CRENÇA ILÓGICA NO QUE NÃO SE PODE PROVAR?

Quisera saber se há outra virtude cristã mais mal compreendida do que  a fé. Comecemos com dois aspectos negativos.
Primeiro, fé não é credulidade. O americano H.L. , Menvhekn, crítico anti-sobrenaturalista do cristianismo, certa vez afirmou que “a fé pode ser  definida concisamente como sendo uma crença ilógica na ocorrência do  improvável”. Mas Mecken errou: Fé não é credulidade. Ser crédulo é ser  ingênuo, completamente desprovido de qualquer crítica, sem discernimento,  até mesmo irracional, no que crê. Porém é um grande erro supor que a fé e a  razão são incompatíveis. A fé e a visão são postas em oposição, uma à outra,  nas Escrituras, mas nunca a fé e a razão. Pelo contrário, a fé verdadeira é  essencialmente racional, porque se baseia no caráter e nas promessas de Deus.  O crente em Cristo é alguém cuja mente medita e se firma nessas certezas.
Em segundo lugar, fé não é otimismo. Nisso é que parece que Normam  Vicent Peale se confundiu. Muito do que ele escreveu é certo.
Sua convicção básica refere-se ao poder da mente humana. Ele cita William James, que disse  que “a maior descoberta desta geração é saber que os homens podem mudar  suas vidas alterando suas atitudes mentais” e Ralph Waldo Emerson, “o homem é o que pensa durante todo o dia”. Assim, o Dr. Peale desenvolve sua  tese sobre o pensamento positivo, o qual ele acaba por igualar (erradamente)  com a fé. O que é precisamente essa “fé pela qual advoga?” Seu primeiro  capítulo do livro O Poder do Pensamento Positivo tem o significativo título de “Tenha Confiança em Si Mesmo”.
No capítulo 7 (“Espere sempre o Melhor e  Consiga-o”) ele faz uma sugestão que garante que dará certo. Leia o Novo  Testamento, diz ele, destaque “uma dúzia de conceitos sobre a fé, os que mais gostar”, e procure memorizá-los. Que esses conceitos de fé permeiem sua  mente consciente. “Repita-os muitas vezes”. Eles se impregnarão em seu subconsciente e esse processo o transformará num crente”. Até que isto parece ser algo promissor. Mas, espere um pouco. Quando a Bíblia se refere  ao “escudo da fé”, prossegue ele, ela está ensinando uma “técnica de força  espiritual”, a saber, “fé, crença, pensamento positivo, fé na vida. Esta é a  essência da técnica que ela ensina”. O Dr. Peale prossegue citando alguns  versículos maravilhosos, tais como “se podes! Tudo é possível ao que crê”;  “se tiverdes fé ... nada vos será impossível”, e “faça-se-vos conforme a vossa  fé”. Mas, então ele estraga tudo, ao explicar este último texto da seguinte  maneira: “de acordo com a fé que você tiver em si mesmo, em seu emprego,  em Deus, é o que terá e não mais do que isso”.
Estas citações bastam para mostrar que o Dr. Peale aparentemente não  faz nenhuma distinção entre a fé em Deus e a fé em si mesmo. De fato, o que  ele demonstra é não se preocupar absolutamente com o objeto da fé. Ele  recomenda, como parte de seu sistema de acabar com as preocupações, que a primeira coisa a fazer todas as manhãs, ao acordarmos e antes de nos  levantarmos, é dizer em voz alta “eu creio!” três vezes; mas ele não nos diz  em que devemos estar afirmando que cremos com tanta confiança e  insistência. As últimas palavras de seu livro são simplesmente “tenha, pois,  fé, e viverá feliz”. Mas fé em que? Crer em quem? Para o Dr. Peale a fé não  passa de mais uma palavra para exprimir autoconfiança, ou um exagerado e  não fundamentado otimismo. Ouvi dizer que o Dr. Peale mudou seu ponto-de-vista depois de Ter escrito este livro, mas o livro acha-se ainda em circulação,  e sendo lido. E nesse livro parece estar bem claro que o seu pensamento positivo é, no fim das contas, meramente um sinônimo para “fé naquilo que a  gente quer que seja verdade”.
O mesmo se pode dizer com relação ao Sr. W. Clement Stone, o filantropista e fundador de “Atitudes Mentais Positivas”. “De simples homens  comuns fazemos super-homens”, diz ele, pois desenvolveu “a técnica de  vendas para acabar com todas as técnicas de vendas”. Porque “você pode até  mesmo vender-se a si próprio, recitando da mesma maneira como fazem os  vendedores da AMP todas as manhãs: “estou contente, tenho saúde, sou o máximo!
“Mas a fé cristã é bem diferente do “pensamento positivo” de Peale e  das “atitudes mentais positivas” de Stone. Fé não é otimismo.
Fé é uma confiança racional, uma confiança que, em profunda reflexão  e certeza, conta o fato de que Deus é digno de todo crédito.
Por exemplo,  quando Davi e seus homens voltaram a Zicagle, antes dos filisteus terem  matado Saul na batalha , um terrível espetáculo os aguardava. Na sua ausência  os amalequitas tinham saqueado a sua aldeia, incendiando as suas casas e levado cativas as suas mulheres e crianças.
Davi e seus homens choraram “até  não terem mais forças para chorar” e então, na sua amargura, o povo cogitou  de apedrejar a Davi. Era uma crise séria e Davi facilmente poderia Ter-se deixado cair no desespero.
Mas, em vez disso, lemos que “Davi se reanimou  no Senhor seu Deus”.
Esta era uma fé verdadeira. Ele não fechou seus olhos  aos fatos. Nem tentou criar sua própria autoconfiança, ou dizer a si mesmo que se sentia realmente muito bem. Não. Ele se lembrou do Senhor seu Deus,  o Deus da criação, o Deus da aliança, o Deus que prometeu ser o seu Deus e colocá-lo no trono de Israel. E à medida em que Davi se recordava das promessas e da fidelidade de Deus, sua fé crescia e se fortificava. Ele “se  reanimou no Senhor seu Deus”.
Assim, pois, a fé e o pensamento caminham juntos, e é impossível crer  sem pensar. CRER É TAMBÉM PENSAR!
O Dr. Lloyd-Jones deu-nos um excelente exemplo neotestamentario desta verdade no comentário que fez de Mateus 6:30 em seus Studies in the  Sermon on the Mount (Estudos sobre o Sermão da Montanha): “Ora, se Deus  veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno,  quanto mais a vós outros, homens de pequena fé”?
A fé, de acordo com o ensinamento do nosso Senhor neste parágrafo, é  basicamente o ato de pensar, e todo o problema de quem tem uma fé pequena  é não pensar. A pessoa permite que as circunstâncias lhe oprimam... temos de  dedicar mais tempo ao estudo das lições de nosso Senhor sobre a observação  e dedução. A Bíblia está repleta de lógica, e seja algo meramente místico. Nós  não nos sentamos simplesmente numa poltrona, permanecendo à espera de  que coisas maravilhosas nos aconteçam. Isso não é fé cristã. A fé cristã é, em  sua essência, o ato de pensar. Olhem para os pássaros, pensem neles, e façam  suas deduções.
Vejam os campos, vejam os lírios silvestres, considerem essas coisas...
A fé , se quiserem, pode ser definida assim: É insistir em pensar quando tudo parece estar determinado a nos oprimir e a nos pôr por terra,  intelectualmente falando. O problema com as pessoas de pequena fé é que  elas , ao invés de controlarem seus próprios pensamentos, os seus  pensamentos é que são controlados por alguma circunstância e, como se diz,  elas passam a rodar em círculos. Isso é a essência da preocupação...Isso não é  pensamento; isso é ausência completa de pensamento, é não pensar.
Antes de deixar este assunto, que trata do que compete à mente na fé  cristã, gostaria tão somente de abordar as duas ordenanças do Evangelho: o  batismo e a ceia do Senhor. Pois ambas são símbolos cheios de significado,  destinados a trazer bênçãos aos cristãos, despertando-lhes a fé nas verdades  que simbolizam. Consideremos a ceia do Senhor, por exemplo. Em seu  aspecto mais simples, é uma visível dramatização da morte do Salvador pelos  pecadores. É uma recordação racional daquele evento. Nossas mentes têm que  trabalhar em torno do seu significado e apropriar-se da certeza que nos  oferece. O próprio Cristo fala-nos através do pão e do vinho. “Morri por vós”,  diz ele, e ao recebermos sua palavra, ela deve trazer a paz a nossos corações culposos.
Desta forma, Thomas Cranmer escreveu que a ceia do Senhor “foi ordenada com este propósito, que toda pessoa dela participando, no comer e  no beber, se lembre de que Cristo morreu a seu favor, e exercite sua fé,  confortando-se na lembrança dos benefícios que Cristo lhe propiciou”.
A segurança cristã é a “plena certeza da fé”. E se a certeza decorre da  fé, a fé decorre do conhecimento , do seguro conhecimento de Cristo e do  Evangelho. Como o expressou o bispo J.C. Ryle: “Uma grande parte de  nossas dúvidas e de nossos temores provém de sombrias percepções do que  seja a real natureza do Evangelho de Cristo... a raiz de uma religião feliz é um  claro , preciso e bem definido conhecimento de Jesus Cristo”.

A BUSCA DA SANTIDADE

Muitos dos segredos da santidade nos são revelados nas páginas da  Bíblia. De fato, um dos objetivos principais da Escritura é mostrar ao povo de  Deus como levar uma vida que lhe seja digna e que lhe agrade. Porém um dos  aspectos mais negligenciados na busca da santidade é a parte que compete à  mente, conquanto o próprio Jesus tenha posto o assunto fora de qualquer  dúvida quando prometeu: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.  É mediante a sua verdade que Cristo nos liberta da escravidão do pecado. De  que forma? Onde se encontra o poder libertador da verdade?
Para começarmos, precisamos Ter um quadro bem claro do tipo de pessoa que Deus pretende que sejamos. Temos de conhecer a lei moral de Deus e os mandamentos. Como o expressou John Owen: “o bem que a mente não é capaz de descobrir, a vontade não pode escolher, nem as afeições podem se apegar”... Portanto, “na Escritura o engano da mente comumente se  apresenta como o princípio de todo pecado”.
O melhor exemplo disso pode-se encontrar na vida terrena do nosso  Salvador. Por três vezes o diabo aproximou-se dele e o tentou no deserto da  Judéia. Nas três vezes Ele reconheceu se má a sugestão que lhe fizera Satanás  e contrária à vontade de Deus. Três vezes Ele se opôs à tentação com a  palavra grega ptai: “está escrito”. Jesus não deu margem a qualquer discussão  ou argumentação. A questão já estava decidida, logo de partida, em sua  mente. Pois a Escritura estabelecera o que é certo. Este claro conhecimento  bíblico da vontade de Deus é o segredo básico de uma vida reta.
Não basta sabermos o que deveríamos ser, entretanto. Temos de ir mais  além, resolvendo, em nossas mentes, a alcançá-la. A batalha é quase sempre  ganha na mente. É pela renovação de nossa mente que nosso caráter e comportamento se transformam. Assim é que, seguidamente, a Escritura nos  exorta a uma disciplina mental nesse sentido. “Tudo o que é verdadeiro”, diz ela, “tudo o que respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é de boa fama, se  alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso  pensamento”.
De novo: “Se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as  coisas lá do alto,  onde Cristo vive,  assentado à direita de Deus. Pensai nas  coisas lá do alto, não nas que são aqui  da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo,  em Deus.
De novo ainda: “Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da  carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o  pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito , para a vida e paz”.
O autocontrole é, antes de tudo, o controle da mente. O que semeamos  em nossas mentes, colhemos em nossas ações. “Ler É Viver” foi o lema de  uma recente campanha publicitária. É um testemunho do fato de que a vida  não consiste apenas em trabalhar, comer, dormir. A mente tem de ser também alimentada. E o tipo de comida que nossas mentes receberem determinará que  tipo de pessoa seremos. Mentes sadias têm um apetite sadio. Temos de  satisfazê-las com alimento saudável, e não com drogas e venenos intelectuais  perigosos.
Há, entretanto, uma outra espécie de disciplina mental a que somos  convocados no Novo Testamento. Temos que considerar não somente o que  deveríamos ser, mas também o que, pela graça de Deus, já somos.
Devemos  constantemente nos lembrar do que Deus já fez por nós, e dizer a nós  mesmos: “Deus uniu-me com Cristo em sua morte e ressurreição, e assim  acabou com a minha velha vida e me deu uma vida completamente nova em  Cristo. Adotou-me em sua família e me fez seu filho. Pôs em mim seu  Espírito Santo, fazendo de meu corpo seu templo. Também tornou-se seu herdeiro e prometeu-me um destino eterno, consigo, no céu. Isto é o que Ele  fez para mim e em mim. Isto é o que sou em Cristo”.
Paulo não se cansa de nos incitar a que deixemos nossas mentes pensar  nessas coisas. “Quero que saibais”, ele escreve. “Porque não quero, irmãos,  que ignoreis...”E cerca de dez vezes em suas cartas aos Romanos e Coríntios  ele profere esta pergunta incrédula: “Não sabeis...” “Não sabeis que todos os  que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte?” Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse  mesmo a quem obedeceis sois servos...? “Não sabeis que sois santuários de  Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” “Não sabeis que os vossos  corpos são membros de Cristo?
A intenção do apóstolo nesta enxurrada de perguntas não é apenas fazer-nos sentir envergonhados por nossa ignorância. É antes fazer com que  nos dizem respeito, as quais de fato nos são bem conhecidas; e que falemos  entre nós sobre elas até o ponto em que se apoderem de nossas mentes e  moldem o nosso caráter. Não se trata do otimismo de autoconfiança de  Norman Vicent Peale, cujo método procura conseguir que façamos de conta  que somos algo que não somos. O método de Paulo é nos lembrar do que  realmente somos, porque assim nos fez Deus em Cristo.

A DIREÇÃO DADA AO CRISTÃO

É um fato incontestável que Deus quer dirigir o seu povo, e que Ele  disse é capaz. Isso é o que a Escritura nos ensina; em Suas promessas (por  exemplo, Prov. 3:6.”Ele endireitará as tuas veredas”), em Seus mandamentos  (por exemplo, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”); e em  suas orações (por exemplo, Col. 4:12:...”que vos conserveis perfeitos e  plenamente convictos em toda a vontade de Deus”).
Mas como descobrirmos a vontade de Deus? Há crentes que afirmam,  com certa facilidade, que “o Senhor me disse para fazer isto” ou “o Senhor  me chamou para fazer aquilo”, como se tivessem uma linha direta com o céu  e estivessem em permanente e direta comunicação telefônica com Deus. Acho difícil acreditar em tais pessoas. Outros há que pensam receber minuciosa  direção de Deus fazendo as mais imaginativas interpretações de passagens  bíblicas, matando o sentido natural, violando o contexto e não tendo uma base  numa exegese segura, nem no senso comum.
Se queremos discernir a vontade de Deus para conosco, devemos começar fazendo uma distinção importante: sua vontade “geral” e sua vontade  “particular”. A vontade “geral” de Deus assim pode ser chamada por ser sua  vontade para com todo o seu povo em geral, em todas as épocas; ao passo  que, a vontade “particular” de Deus assim pode ser referida por ser sua  vontade para com pessoas em particular e em ocasiões específicas. A  vontade geral de Deus para conosco é que nos conformemos à imagem de seu Filho. A vontade particular de Deus, por outro lado, refere-se a questões tais  como a escolha da profissão; a escolha do companheiro ou companheira na  vida; e como empregar nosso tempo, nosso dinheiro e nossas férias.
Uma vez feita essa distinção, achamo-nos em condições de repetir e responder aquela nossa pergunta sobre como descobrirmos a vontade de Deus . Pois a vontade geral de Deus foi revelada nas Escrituras. Não que seja sempre  fácil discernir Sua vontade nas complexas situações éticas modernas. Precisamos Ter princípios seguros para a interpretação bíblica. Precisamos estudar, discutir e orar. Não obstante, continua sendo verdade, no que se  refere à vontade geral de Deus, que a vontade para com o Seu povo encontra- se na Palavra de Deus.
A vontade particular de Deus, por outro lado, não se encontra “pronta” na Escritura, pois a Bíblia não se contradiz, e é uma característica da vontade  particular de Deus que ela seja diferente para diferentes membros da sua  família. É claro que encontramos nas Escrituras princípios gerais que nos  orientam na tomada de nossas decisões em particular. E não nego que muitos  homens de Deus, pelos séculos a fora, afirmaram Ter recebido das Escrituras  uma direção detalhada. Todavia, devo repetir que está não é a forma de como  Deus costumeiramente procede.
Considere, por exemplo, a questão do casamento. A Escritura lhe dará  uma direção em termos gerais. Ela lhe dirá que o casamento está nos planos  de Deus, e que uma vida de solteiro deve ser a exceção, não a regra; que um  dos objetivos principais do casamento é o companheirismo, e essa é uma das  qualidades a ser procurada na pessoa com que se casar; que como cristão você  tem a liberdade de se casar somente com quem seja também crente em Jesus;  e que o casamento (o compromisso total e permanente de um homem com  uma mulher) é o contexto ordenado por Deus no qual a união e o amor sexual  devem ser desfrutados. Estas e outras verdades vitais acerca da vontade geral  de Deus para com o casamento, a Escritura lhe mostrará. Mas a Bíblia não lhe  dirá se é a Clara, a Mara , a Sara ou a Nara aquela com quem você deverá se  casar!
Como então tomar uma decisão a respeito desta importantíssima questão? Há somente uma resposta possível: usando a mente e o senso comum que Deus lhe deu. Você certamente orará pedindo a direção de Deus.
E se você for sábio, pedirá o conselho de seus pais e de outras pessoas mais  velhas que o conhecem bem. Mas a decisão final é sua, na confiança de que  Deus o guiará no seu próprio raciocínio.
Há uma boa base bíblica, no Salmo 32:8-9, para o uso da mente dessa  forma. Estes dois versículos devem ser lidos em conjunto. Eles nos dão um  bom exemplo do equilíbrio que há na Bíblia. O versículo 8 contém uma  promessa quanto à direção de Deus: “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho  que deves seguir; e sob as minhas vistas , te darei conselho”. É, com efeito,  uma tríplice promessa: “instruir-te-ei,” “ensinar-te-ei,” e “dar-te-ei conselho”. Mas o versículo 9 acrescenta imediatamente: “Não sejais como o cavalo ou a  mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de  outra sorte não te obedecem”. Em outras palavras, embora deus prometa nos  guiar, não devemos esperar que o faça tal como guiamos cavalos e mulas.  Deus não porá um freio nem uma rédea em nós; pois não somos cavalos nem  mulas: somos seres humanos. Temos entendimento, o que mulas e cavalos  não têm.
É, pois, pelo uso de nosso próprio entendimento, iluminados pela Escritura e pela oração, recebendo o conhecimento de amigos, que Deus nos  guiará para conhecermos sua vontade particular para nós.
É urgente atentarmos a essa advertência da Escritura. Já vi muitos  jovens cristãos cometerem erros sérios e tolos por agirem sob algum impulso  irracional ou “por palpite”, em vez de se valerem poderiam fazer suas as  palavras de Bernard Baruch: “Todos os fracassos que tive, todos os erros que  cometi, todas as tolices que já vi por aí, tanto na vida pública como na  particular , foram a conseqüência de uma ação não pensada.”.

A APRESENTAÇÃO DO EVANGELHO

Em Romanos 10 Paulo argumenta convincentemente a favor da necessidade de se pregar o Evangelho para que as pessoas se convertam.
Os  pecadores são salvos, diz ele, por invocarem o nome do Senhor Jesus.
Isso é  muito claro. Mas como invocarão àquele em quem não creram? E como  crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão a respeito deles se  não há quem pregue? Ele concluiu o seu argumento dizendo:
“Assim , a fé  vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo”.
No seu argumento está implícito que nossa proclamação do Evangelho  tem de Ter um conteúdo sólido. É nossa responsabilidade apresentar de forma  completa a pessoa divina e humana de Jesus Cristo, e sua obra de salvação ,  de modo que por meio desta “pregação de Cristo” Deus desperte a fé no ouvinte. Tal pregação evangelística está longe de sua trágica caricatura, tão  comum hoje em dia, a saber: um apelo emocional e anti-intelectual por  “decisões”, quando os ouvintes têm apenas uma confusa noção sobre o que  devam se decidir e por quê.
Convide-o a considerar o lugar da mente da evangelização, dando-lhe  duas razões do Novo Testamento para uma proclamação do evangelho, que  faça uso da mente.
        A primeira é tirada do exemplo dos apóstolos. Paulo resumiu o seu  próprio ministério evangelístico com as simples palavras “persuadimos aos homens”. Pois bem, a “persuasão” é um exercício intelectual. “Persuadir” é  dispor argumentos de forma a prevalecer sobre as pessoas, fazendo-as mudar  de idéia com respeito a alguma coisa. E o que Paulo declara fazer é ilustrado por Lucas nas páginas de Atos. Ele nos diz , por exemplo, que por três  semanas na sinagoga em Tessalônica Paulo “dissertou entre eles , acerca das  Escrituras, expondo e demonstrando Ter sido necessário que o Cristo  padecesse e ressurgisse dentre os mortos” e dizendo “este é o Cristo, Jesus ,  que eu vos anuncio”. O resultado, Lucas acrescenta, foi que “alguns deles foram persuadidos”. Pois bem, todos os verbos que Lucas emprega aqui, descrevendo o ministério evangelístico de Paulo - disserta , expor, demonstrar, anunciar e persuadir - são , até certo ponto, verbos “Intelectuais”.  Indicam que Paulo ensinava um corpo de doutrina e dissertava em direção a  uma conclusão. Seu objetivo era convencer para converter. E o fato de que  depois de uma campanha, muitas vezes dizemos “graças a Deus alguns se converteram”, é um sinal de que fugimos um pouco do vocabulário  neotestamentário. Seria igualmente bíblico, se não mais, dizermos “graças a  Deus alguns foram persuadidos”. Pelo menos isso foi o que Lucas disse  depois da missão de Paulo em Tessalônica.
As longas permanências de Paulo em algumas cidades, notadamente em  Éfeso, é explicável pela natureza persuasiva de sua pregação do evangelho.  Nos três primeiros meses que lá passou Paulo freqüentou a sinagoga, onde  “falava ousadamente, dissertando e persuadindo , com respeito ao reino de  Deus”. Depois apartou-se da sinagoga “passando a discorrer diariamente na  escola de Tirano” local que possivelmente teria sido um salão de conferência  secular, alugado por ele para esse fim. Alguns manuscritos acrescentam que  suas palestras iam da hora Quinta a décima, ou seja, das onze da manhã às  quatro da tarde. E “durou isto”, Lucas nos informa, “por espaço de dois anos”. Admitindo que Paulo trabalhasse seis dias por semana , as cinco horas diárias em que passava pregando persuasivamente o evangelho totalizando cerca de 3.120 horas. Não é de se surpreender, ainda, que, em conseqüência, Lucas  diz: “todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor”.
Quase todo o  mundo certamente teria que passar por lá, mais cedo ou mais tarde, por causa  de alguma compra, ou para consultar um médico, ou um advogado ou um  político, ou ainda para visitar um parente. E, evidentemente, um dos atrativos  da cidade era ir ouvir o pregador cristão Paulo. Podia-se ouvi-lo a qualquer  dia. Muita gente foi vê-lo, e foi persuadida da verdade de sua mensagem,  voltando nascidos de novo às suas vilas de origem. Assim a palavra de Deus  espalhou-se por toda a província.
A Segunda evidência que o Novo Testamento nos dá de que a evangelização deve ser uma proclamação da boa nova fazendo uso do raciocínio é que a conversão, não poucas vezes, é descrita em termos da resposta de alguém não a Cristo propriamente, mas à “verdade”. Tornar-se cristão é “crer na verdade”, “obedecer à verdade”, “reconhecer a verdade”.  Paulo chega até a referir-se a seus leitores romanos dizendo “viestes a  obedecer de coração á forma de doutrina a que fostes entregues”. É evidente,  por essas expressões, que, ao pregarem a Cristo, os evangelistas da igreja primitiva ensinavam um corpo de doutrina acerca de Cristo.
Há , porém, objeções a esta minha tese quanto ao evangelismo.
Primeiramente, pode-se perguntar , essa evangelização racional que  advogo não estará a serviço do orgulho intelectual das pessoas?
Certamente  isso é possível. Temos que nos precaver contra esse perigo.
Ao mesmo tempo  há uma diferença substancial entre adular a vaidade intelectual de alguém (o  que não devemos fazer) e respeitar sua integridade intelectual (o que temos de  fazer).
Em segundo lugar, essa apresentação do evangelho com persuasão intelectual não faz discriminação, impedindo que as pessoas de baixo nível  cultural recebam o evangelho? Não, não faz. Ou, pelo menos, não deveria  fazer. Assim como Paulo, somos compromissados ou “somos devedores”,  tanto a sábios como a ignorantes”. O evangelho é para todos, independentemente do nível de escolaridade. E o tipo de evangelização que defendo, que apresenta Jesus Cristo em sua plenitude, é importante a toda classe de pessoa,  sejam crianças ou adultos, cultas ou incultas, indígenas do Amazonas ou  intelectuais da universidade. É que a apresentação por esta forma de  evangelização não é uma apresentação acadêmica (calcada em termos  filosóficos ou num vocabulário complicado), mas sim racional. E as pessoas  de baixo nível cultural respondem à razão da mesma forma que as doutas. Suas, mentes talvez não tenham sido exercidas a pensar de uma maneira  determinada, e é certo que deveríamos observar a diferença que Marshall  McLuhan e seus seguidores fazem, distinguindo o pensamento linear do não- linear. De qualquer forma, aquelas pessoas ainda pensam. Todos ser humano  pensa, pois Deus criou o homem como um ser pensante. O ensinamento do  próprio Jesus, embora maravilhosamente simples, certamente fez com que seus ouvintes pensassem. Ele lhes apresentou verdades importantes acerca de Deus e do homem, sobre si mesmo e o Reino, sobre esta vida e a próxima.
E  com freqüência terminava suas parábolas com uma incomodativa pergunta,  forçando seus ouvintes a tomarem uma decisão com respeito ao ponto em  discussão.
Nosso dever então é evitar distorcer ou diluir o evangelho, e, ao mesmo  tempo, apresentá-lo de forma bem clara, manejando bem a palavra da  verdade, de forma que as pessoas venham a aceitá-la, para não acontecer  conforme as palavras de Jesus: “a todos os que ouvem a palavra do Reino e  não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no  coração”. Creio que ás vezes são as nossas explicações “por alto” que dão ao  diabo precisamente esta oportunidade, que nunca se lhe deveria dar.
Em terceiro lugar, a pregação do evangelho com argumentação racional  não usurpa o trabalho do Espírito Santo, fazendo com que na prática o  dispensemos? Bem, é claro que sem o poder do Espírito Santo a evangelização é impossível. Todavia, é um grande erro pensar que é uma característica da autoconfiança ou da falta de fé dar um conteúdo de doutrina  às boas novas, e valer-se de argumentos para demonstrar a verdade e a  relevância do evangelho; e que basta Ter mais fé no Espírito Santo para podermos omitir toda doutrina e argumentação. Na verdade o contrário disso  é que é certo. É uma falsa antítese essa a de se contrapor ao Espírito Santo a  apresentação do evangelho que faça uso da razão.
O que Paulo renunciara, disse ele aos coríntios, fora a sabedoria do  mundo (como matéria de sua mensagem) e a retórica dos gregos (como  método de apresentação). Em vez da sabedoria deste mundo, resolveu pregar  a Cristo, este crucificado; no lugar da retórica, optou por confiar no poder do  Espírito Santo. Mas Paulo ainda se valia da doutrina e da argumentação.
Gresham Machen expressou admiravelmente esta questão em seu livro  The Christian Faith in the Modern World (A Fé Cristã no Mundo Moderno):  “O misterioso trabalho do Espírito Santo tem mesmo que acontecer no novo nascimento”, escreveu. “Do contrário, todos os nossos argumentos são  completamente inúteis. Mas não podemos concluir que os argumentos sejam desnecessários, pelo simples fato de serem insuficientes. O que o Espírito  Santo faz no novo nascimento não é transformar a pessoa num cristão sem dar  atenção à evidência, mas, pelo contrário, dissipar a névoa de seus olhos, de  forma que possa ver e responder à evidência.
Wolfhart Pannenberg, o jovem professor de Teologia Sistemática de  Munique, escreveu algo similar em seu livro “Basic Questions in Theology”  (“Questões Teológicas Fundamentais”): “Uma mensagem não convincente ,  como alternativa, não é capaz de alcançar o poder de convencer  simplesmente apelando ao Espírito Santo... A argumentação e a operação do  Espírito não são mutuamente exclusivas. Ao confiar no Espírito, Paulo de  forma alguma dispensou-se de pensar e argumentar”.
Assim, pois , em nossa proclamação do evangelho, temos que nos dirigir à pessoa toda (mente, coração e vontade) com o evangelho todo (Cristo  encarnado, crucificado, ressurreto, soberano, sua Segunda vinda e muito mais  ainda). Deveremos argumentar com sua mente e apelar fervorosamente a seu  coração para que mova a sua vontade,  estando nossa confiança depositada no  Espírito Santo do começo ao fim. Não nos é dada a liberdade de apresentar  Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua  morte, sua cruz mas não sua ressurreição,  como Salvador mas não como  Senhor). Nem ainda temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente  mas não do coração, do coração mas não da mente, ou da mente ou do coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo  para o Cristo total, e para isso é necessário o completo consentimento de sua  mente, coração e vontade.
Oro insistentemente que Deus levante hoje uma nova geração de apologistas cristãos, pessoas que comuniquem a mensagem cristã, tendo uma  absoluta fidelidade ao evangelho bíblico, e uma inabalável confiança no poder  do Espírito , combinada com um entendimento profundo e sensível às  alternativas contemporâneas do evangelho; pessoas que se relacionem com as demais com vivacidade, ardor, autoridade e propriedade, pessoas que façam  us9 de suas mentes para ganharem outras mentes para Cristo.

O MINISTÉRIO E SEUS DONS

Meu sexto e último exemplo quanto ao lugar da mente é o ministério  cristão. Temos que usar nossa mente qualquer que seja o ministério, mas  especialmente no ministério ordenado ou pastoral da igreja.
Hoje em dia há um renovado interesse no tema do ministério e nos carismata (dons do Espírito) que qualifiquem e dão condições ao povo de Deus para exercer o seu ministério. Todos os dons espirituais (e são muitos)  destinam-se a algum tipo de ministério. São dados para serem exercidos  “visando um fim proveitoso”, tendo como propósito edificar a igreja, o corpo  de Cristo, de forma a crescer até a maturidade. Os dons que mais devem ser  procurados e apreciados, portanto, são os dons do ensino, já que é por meio  deles que a igreja é mais “edificada”.
Este Dom do ensino é, sem dúvida , necessário aos presbíteros, que tem  cuidado pastoral para com a igreja local. Vamos abordar rapidamente tanto a  natureza de seu ministério como também as qualificações que lhes são  necessárias.
O ministério “pastoral” é essencialmente um ministério de “ensino”.  Vou esclarecer isso. O ministro é um pastor, designado por Cristo, o Sumo  Pastor, para cuidar de parte do seu rebanho, tendo em particular a  responsabilidade de alimentar as ovelhas (ou seja , ensiná-las).
Assim, pois, o apóstolo Paulo podia dizer aos presbíteros-bispos da igreja em Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o  Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a  qual ele comprou com o seu próprio sangue’.
E o apóstolo Pedro, que por três vezes fora pessoalmente comissionado  pelo Senhor ressurreto a cuidar ou alimentar suas ovelhas e cordeirinhos, mais  tarde escreveu a outros presbíteros dizendo:
“Pastoreai o rebanho de Deus que  há entre vós...”
“Deixando de lado a metáfora do pastor, a maior responsabilidade dos  presbíteros locais é: “apresentar todo homem perfeito em Cristo”.
E, para  alcançar este objetivo, devem proclamar a Cristo em sua plenitude,  “advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria”. É pelo conhecimento de Cristo, tal como o apresentam as Escrituras e o  proclama o ministério, que os cristãos alcançam maturidade espiritual.
As qualificações para o ministério são consistentes com sua natureza.  Todo candidato ao ministério pastoral ou ao presbiterato deve possuir tanto  a fé bíblica como o Dom de ensiná-la. Deve ser ortodoxo. “Apegado à palavra  fiel que é segundo a doutrina (literalmente: segundo o didaquê, ou o ensino  dos apóstolos), de modo que tenha poder assim para exortar pelo reto ensino  como para convencer os que contradizem”. Deve ser ainda “apto para  ensinar”. Esta são duas qualificações que lhe são indispensáveis. Deve ser fiel  à didaquê e ser didaktikos, um professor que sabe transmitir e que tem o reto  ensino.
Isso o obrigará a estudar , tanto em sua preparação ao ministério como  durante o seu exercício. É impressionante que aos que querem se recomendar  a si próprios como ministros de Deus, Paulo escreve, devem fazê-lo não  somente através de sua paciência nas tribulações, nem somente através de sua  pureza, privação, bondade e amor, mas também através de seu saber.
Sou muito grato ao Dr. Billy Graham por ouvi-lo dizer, numa preleção  em Londres dirigida a cerca de 600 ministros, em novembro de 1970, que se  tivesse que recomeçar o seu ministério de novo, estudaria três vezes do que  estudou. “Tenho pregado muito e estudado tão pouco”, disse ele. No dia  seguinte ele me contou uma afirmativa feita pelo Dr. Donald Barnhouse: “Se  me fossem dados apenas três anos para servir ao Senhor, passaria dois desses  três anos estudando e me preparando”.
Eu mesmo estou cada vez mais ansioso por ver Deus chamar, nos dias  de hoje, mais pessoas para este ministério do ensino; pessoas com mentes  atentas, convicções bíblicas e aptidão para ensinar; colocando-as nas cidades  grandes e importantes, e nas cidades universitárias deste mundo; de forma que  , à semelhança de Paulo na escola de Tirano em Éfeso, nesses lugares  exerçam um ministério de ensino sistemático e persuasivo, expondo as velhas  Escrituras e aplicando-as ao mundo moderno; e que tal ministério fiel,  debaixo da boa mão de Deus, não somente conduza sua própria congregação  até o ponto da maturidade em Cristo, mas também espalhe sua bênção por toda parte, através dos visitantes que por pouco tempo venham a receber sua influência.

APLICANDO O NOSSO CONHECIMENTO

No começo deste livrinho mencionei o risco de se cair no extremo oposto, ou seja, o perigo de uma reação exagerada, passando-se de um estéril  anti-intelectualismo a um super-intelectualismo igualmente estéril.  Evitaremos facilmente esse perigo se nos lembrarmos de apenas uma coisa:  Deus não pretende que o conhecimento seja um fim em si mesmo, mas sim  que seja um meio para se alcançar algum fim.
Tentei abordar rapidamente seis esferas da vida cristã nas quais a mente  desempenha um papel importante: o culto, a fé, a santidade, a direção, a  evangelização e o ministério cristão. Sendo tais coisas impossíveis se não  usarmos as nossas mentes e se não adquirirmos algum conhecimento, é-nos  mister admitir o corolário, que a aquisição de conhecimento bíblico deve nos levar a essas coisas e enriquecer nossa experiência quanto às mesmas.
O conhecimento traz consigo a solene responsabilidade de aplicarmos esse conhecimento que temos, ou seja, agirmos de forma que lhe seja  compatível. Vou esclarecer mais este ponto.
Em primeiro lugar, o conhecimento deve conduzir à adoração. A conseqüência de nosso verdadeiro conhecimento de Deus não será nos empavonarmos, cheios de orgulho pela sabedoria que temos, mas sim nos submetermos a Ele com plena admiração, exclamando: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus. Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!”
Sempre que nosso conhecimento se torna árido ou acaba com o nosso entusiasmo e nos deixa frios, alguma coisa de errado aconteceu. Pois toda vez  que Cristo nos expõe as Escrituras e dEle recebemos algum ensinamento, nos  deve arder o coração. Quanto mais conhecemos a Deus, mais devemos amá-lo.  Creio Ter sido o bispo Handley Moule quem disse que deveríamos nos precaver tanto contra uma teologia sem devoção como também contra uma  devoção sem teologia.
Em segundo lugar, o conhecimento deve conduzir à fé. Já vimos que a  fé se fundamenta no conhecimento, e é este que a torna racional.
“Em ti, pois,  confiam os que conhecem o teu nome”, escreveu o salmista.
É precisamente  o nosso conhecimento da natureza e do caráter de Deus que suscita a nossa fé.  Mas se é que não podemos crer sem conhecimento, também não devemos  conhecer sem crer. Isto é: nossa fé tem de se apoderar de toda a verdade que  nos seja revelada por Deus. Na verdade, a mensagem de Deus não traz  benefício algum, a menos que encontre fé nas pessoas que a ouvem. Por esse  motivo é que Paulo não somente ora, no sentido de que os olhos do nosso  coração sejam iluminados para sabermos qual é a suprema grandeza do poder  de Deus, demonstrada na ressurreição; mas também acrescenta que este poder  que Deus exerceu em Cristo é disponível para nós que cremos. O primeiro  passo necessário é sabermos em nossas mentes qual é a magnitude do poder  de Deus, mas isto deve conduzir-nos a apropriarmos pela fé esse poder em  nossas vidas.
Em terceiro lugar, o conhecimento deve conduzir à santidade. Já consideramos alguns meios pelos quais nossa conduta se transformaria se tão  somente soubéssemos com maior clareza o que deveríamos ser e o que somos.  Mas agora temos que ver como cada vez mais se torna maior a nossa responsabilidade de pôr nosso conhecimento em prática, à medida que ele se  amplia. Poderia citar muitos exemplos bíblicos. O Salmo 119 está repleto de  aspirações por conhecer a lei de Deus. Por que? Para obedecê-lo melhor: “Dá- me entendimento e guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei”. Disse  Jesus, o Senhor, aos doze: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as  praticardes”. Paulo escreveu: “O que também aprendeste, e recebestes , e  ouvistes em mim, isso praticai”. E Tiago dava ênfase ao mesmo princípio ao  rogar a seus leitores que fossem “praticantes da palavra , e não somente ouvintes” advertindo-os de que a fé sem obras é uma ortodoxia morta, que até  os demônios aceitam.
O ministro puritano Thomas Manton, que outrora foi o capelão de Oliver Cromwell, comparou o cristão desobediente a uma criança que sofre de  raquitismo. “O raquitismo torna as cabeças grandes e os pés fracos. Não  apenas devemos discutir quanto à palavra, e falar a respeito dela, mas também  guardá-la. Não sejamos nem só ouvidos, nem só cabeça, nem só língua, mas  os pés têm de se exercitar!”
Em quarto lugar, o conhecimento deve conduzir ao amor. Quanto mais  sabemos, mais devemos compartilhar do que sabemos com os outros e usar o  nosso conhecimento em serviço a eles, seja na evangelização, seja no  ministério. Às vezes, porém, nosso amor poderá moderar o nosso conhecimento. Pois o conhecimento em si pode ser ríspido; é-lhe necessário  Ter a sensibilidade que o amor lhe pode dar. Foi isso o que Paulo quis dizer  quando escreveu: “O saber ensoberbece, mas o amor edifica”. O “senhor do  saber” de quem ele fala é o cristão instruído, sabedor de que há um só Deus,  de que os ídolos nada são, e que portanto não há razão teológica alguma pela  qual não deva comer uma comida que fora anteriormente oferecida a ídolos.  Entretanto, pode haver um motivo de ordem prática para dela se abster. É que  alguns cristãos não têm tal conhecimento e, em conseqüência, suas consciências são “fracas”, ou seja, não instruídas e excessivamente  escrupulosas. Anteriormente eles próprios haviam sido idólatras. E, mesmo  depois de sua conversão, acham que, em sã consciência, não podem comer  tais carnes. Estando com eles, então, Paulo argumenta: o cristão “forte” ou  instruído deve abster-se para não ofender a consciência “fraca” de seus irmãos. Ele mesmo tem a liberdade de consciência para comer. Porém o seu  amor limita a liberdade que o conhecimento lhe dá. Talvez seja contra tais circunstâncias que Paulo chega a dizer, em alguns capítulos adiante:
“Ainda  que eu ... conheça todos os mistérios e toda a ciência ... se não tiver amor, nada  serei”.
Prestemos atenção a essas advertências. O conhecimento é indispensável à vida e ao serviço cristãos. Se não usamos a mente que Deus  nos deu, condenamo-nos à superficialidade espiritual, impedido-nos de  alcançar muitas das riquezas da graça de Deus. Ao mesmo tempo, o conhecimento nos é dado para ser usado, para nos levar a cultuar melhor a  Deus, nos conduzir a uma fé maior, a uma santidade mais profunda, a um  melhor serviço. Não é de menos conhecimento que precisamos, mas sim de mais conhecimento, desde que o apliquemos em nossa vida.
A pergunta de como tal conhecimento pode ser obtido, a melhor resposta que posso dar é com palavras de um dos sermões de Charles Simeon: “Para a obtenção e conhecimento divino, a orientação que temos é a de  combinar uma dependência do Espírito de Deus com nossas próprias pesquisas. Que não nos atrevamos a separar então o que Deus uniu”. Isso quer  dizer que temos de orar e temos de estudar. É como foi dito a Daniel: “Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia, em que aplicaste o coração a  compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas  orações...”De fato, a disposição mental para compreender , a humilhação de si  mesmo perante Deus são sinais do ardente desejo de quem quer alcançar a  verdade divina. Tal desejo certamente será satisfeito. Pois deus prometeu a  quem O buscar com seriedade:
Filho meu, se aceitares as minhas palavras, e esconderes contigo os  meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido, e para  inclinares o teu coração ao entendimento; e se clamares por inteligência, e  por entendimento alçares a tua voz; se buscares a sabedoria como a prata, e  com a tesouros escondidos a procurares; então entenderás o temor do  Senhor, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria,  da sua boca vem a inteligência e o entendimento.
***
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