terça-feira, 24 de setembro de 2013

A GENTE SE ACOSTUMA




Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)
O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

CRER É TAMBÉM PENSAR


John Stott não escreveu um livro grande, mas um grande livro. Este servo de Deus nos encoraja a usarmos nossas mentes a serviço de Cristo.
Boa leitura!
Crer é também pensar
John R. W. Stott
Ninguém deseja um cristianismo frio, triste, intelectualizado.
Mas será que isso significa que temos que evitar a todo custo o “intelectualismo”? Não é a experiência o que realmente importa, e não a doutrina? Muitos estudantes fecham suas mentes ao fecharem seus livros, convencidos de que ao intelecto compete apenas um papel secundário, se tanto, na vida cristã. Até que ponto têm eles razão? Qual é o lugar da mente na vida do cristão iluminado pelo Espírito Santo?
Tais perguntas são de vital importância prática, e afetam todos os aspectos de nossa fé. Por exemplo, até que ponto devemos apelar à razão das pessoas em nossa apresentação do evangelho? 
A “fé” implica algo completamente irracional? O senso comum tem algum papel a desempenhar na conduta do cristão?
Tendo esses e outros problemas em vista, o Rev. John Stott aborda neste livreto o lugar da mente na vida cristã. explica por que o uso da mente é tão importante para o cristão, e como se aplica em aspectos práticos de sua vida. E faz um vigoroso apelo aos cristãos para mostrarem “uma devoção inflamada pela verdade”.
***

CRISTIANISMO DE MENTE VAZIA

O que Paulo escreveu acerca dos judeus não crentes de seu tempo poderia ser dito, creio, com respeito a alguns crentes de hoje: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Muitos têm zelo sem conhecimento, entusiasmo sem esclarecimento. Em outras palavras, são inteligentes, mas faltam-lhes orientação.
Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo. É como ouvi certa vez o Dr. John Mackay dizer, quando era presidente do Seminário de Princeton: “A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação”.
O espírito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os programatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer ideia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”. Os Jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo. Um universitário de Melbourne, Austrália, ao assistir a uma conferência na Suécia, soube que um movimento de protesto estudantil começara em sua própria universidade. Ele retorcia as mãos, desconsolado. “Eu devia estar lá”, desabafou, “para participar.
O protesto é contra o que?” Ele tinha zelo sem conhecimento.
Mordecai Richler , um comentarista canadense, foi muito claro a esse respeito: “O que me faz Ter medo com respeito a esta geração é o quanto ela se apóia na ignorância. Ser o desconhecimento geral continuar a crescer, algum dia alguém se levantará de um povoado por aí dizendo Ter inventado... a roda”.
Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. Vou dar alguns exemplos.
Os católicos quase sempre têm dado uma grande ênfase no ritual e na sua correta conduta. Isso tem sido, pelo menos, uma das características tradicionais do catolicismo, embora muitos católicos contemporâneos (influenciados pelo movimento litúrgico) prefiram o ritual simples, para não dizer o austero. Observe-se que o cerimonial aparente não deve ser desprezado quando se trata de uma expressão clara e decorosa da verdade bíblica. O perigo do ritual é que facilmente se degenera em ritualismo, ou seja, numa mera celebração em que a cerimônia se torna um fim em si mesma, um substituto sem significado ao culto racional.
Por outro lado, há cristãos radicais que concentram suas energias na ação política e social. A preocupação do movimento ecumênico não é mais ecumenismo em si, ou planos de união de igrejas, ou questões de fé e disciplina; muito pelo contrário, preocupa-se com problema de dar alimento aos famintos, casa aos que não tem moradia; com o combate ao racismo, com os direitos dos oprimidos; com a promoção de programas de ajuda aos países em desenvolvimento, e com o apoio aos movimentos revolucionários do terceiro mundo. Embora as questões da violência e do envolvimento cristão na política sejam controvertidos, de uma maneira geral deve-se aceitar que luta pelo bem estar, pela dignidade e pela liberdade de todo homem, é da essência da vida cristã. Entretanto, historicamente falando, essa nova preocupação deve muito de seu ímpeto à difundida frustração de que jamais se alcançará um acordo em matéria de doutrina. O ativismo ecumênico desenvolve-se com reação à tarefa de formulação teológica, a qual não pode ser evitada, se é que as igrejas neste mundo devam ser reformadas e renovadas, para não dizer, unidas.
Grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais séria, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo.
Um dos líderes desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa” não é a doutrina, mas a experiência”. Isso equivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão inteligente a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem. Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que ele próprio criou.
Estas três ênfases - a de muitos católicos no ritual, a de radicais na ação social, e a de alguns pentecostais na experiência - são, até certo ponto, sintomas de uma só doença, o anti-intelectualismo.
São válvulas de escape para fugir à responsabilidade, dada por Deus, do uso cristão de nossas mentes.
Num enfoque negativo, eu daria como substituto este trabalho “a miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”. Mais positivamente, pretendo apresentar resumidamente o lugar da mente na vida cristã. Passo a dar uma visão geral do que pretendo abordar. No segundo capítulo, a título de introdução, apresentarei alguns argumentos - tanto seculares como cristãos - a favor da importância do uso de nossas mentes. No terceiro, constituindo a tese principal, descreverei seis aspectos da vida e responsabilidade cristãs, nos quais a mente tem uma função indispensável. Concluindo , procurarei prevenir contra o extremo oposto, também perigoso, de abandonar um anti-intelectualismo superficial para cair num árido super-intelectualismo. Não estou em defesa de uma vida cristã seca, sem humor, teórica, mas sim de uma viva devoção inflamada pelo fogo da verdade. Anseio por esse equilíbrio bíblico, evitando-se os extremos do fanatismo. Apressar-me-ei em dizer que o remédio para uma visão exagerada do intelecto não é nem depreciá-lo , nem negligenciá-lo, mas mantê-lo no lugar indicado por Deus, cumprindo o papel que ele lhe deu.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

AMIGO DO PEITO



Amigo do peito

O coração é, inquestionavelmente, o órgão do corpo humano que mais dá sinais notórios da sua presença e funcionamento. É possível senti-lo bater, às vezes, acompanha o nosso estado de ânimo, de tal modo, que acelera, intensifica o trabalho. Se estivermos ansiosos, parece querer correr acelerado contra o tempo. Se estivermos com medo, também corre, como querendo fugir. Se estivermos tristes, bate descompassado, como que acompanhando a nossa cambaleada. Se estivermos em pânico, parece que ficamos com “o coração na boca”, querendo sair, tamanho o desespero. Se estivermos angustiados, parece que sentimos “o coração nas mãos”, como que necessitasse de proteção e aconchego para não parar de bater. O coração sempre exerceu fascínio no ser humano, e é por isso que foi escolhido para ser a sede de nossos sentimentos. O coração parece incansável, até que pare. Por tantas razões ele patrocina inúmeras expressões populares: ele tem um “coração derretido”, assinala o traço compassivo e bondoso de alguém, que se desmancha diante da insistência, do pedido, seja lá por qual forma se externe. Um “coração derretido” é um coração que dá e chora, qual um “coração mole”.
Amigo que é amigo mesmo, só pode ser “amigo do peito”, pois é no peito que ele estará incrustado, porque é lá que está o coração que sente. Sente tanto que às vezes é de “arrepiar o coração”, como se este tivesse pelos para serem eriçados. Quando alguém perde a capacidade de sentir, de se emocionar, de se condoer, nada capta mais essa situação que a expressão que o qualifica: ele tem um “coração de pedra”.
A alegria também tem suas contradições, uma vez que podemos até “chorar de alegria”. Da mesma forma, expressões do tipo: “arrebenta coração”, “explode coração”, trazem a marca do contraditório, pois, de tanta alegria parece que o coração não consegue conter toda ela, tamanha “quantidade” de alegria.
Um “coração malvado” pode ter uma conotação de sentido dúbio: tanto pode se referir a qualidade de má de uma pessoa, quanto a qualidade “sapeca”, “moleque”, de alguém.
Se o indivíduo já nasce com um “coração corintiano , parece ter adquirido a resistência de um “coração sofredor” e de um “coração fiel”.
Quando alguém “lembra de cor” alguma coisa, além de atestar sua capacidade de memória, revela também, que aquilo foi, por um momento, importante para a pessoa. Você memoriza algo que lhe diz respeito, que é necessário, que alguém vai lhe cobrar mais tarde, ou que você deseja ardentemente conservar em sua mente. Por causa deste último aspecto assinalado nasceu esta expressão, pois “cor”, vem de “coeur”, no francês, que significa coração. A ideia é lembrar no coração, onde se guardam as coisas desejadas e queridas. Milton Nascimento imortalizou na música “Canção da América” esta mesma ideia  “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi … Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração.”
A “voz do coração”, assim como, “a voz da consciência”, são sons que não podem ser abafados com facilidade. Podem ser sentidos como doces sussurros, ou fala coerente e comum; algumas vezes, como gritos ou gemidos que ensurdecem ou impulsionam.
O coração não é só um lugar de guardar, é também lugar para entrar, daí a figura de linguagem: “quero entrar no seu coração”. Até mesmo Jesus utiliza essa figura no texto Sagrado, “eis que estou a porta e bato” (Ap.3:20). O coração, como entrada, tem porta e tem chave – a chave é a vontade, por isso, ninguém “arromba um coração”, nem “entra sem ser convidado”.
Dr. Fernando de Oliveira

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ESPANTANDO A TRISTEZA




Um grão de mostarda para espantar a tristeza


Uma antiga lenda chinesa fala de uma mulher cujo filho único morreu. Em sua dor, ela aproximou-se do mestre e disse:
 − De que orações ou de que encantamentos mágicos dispões para trazeres de volta a vida de meu filho?'
Em vez de mandá-la embora ou argumentar com ela, ele lhe disse:
− Traga-me um grão de mostarda de um lar que jamais conheceu a tristeza. Nós o usaremos para expulsar a tristeza de sua vida.
A mulher partiu de imediato em busca do grão mágico. Primeiramente dirigiu-se a uma esplêndida mansão, bateu à porta e falou:
−  Estou procurando uma casa que nunca conheceu a tristeza. Esta é uma delas? É muito importante para mim!
Responderam-lhe:
− Vieste ao lugar errado. E começaram a descrever-lhe as trágicas coisas que recentemente lhes tinham acontecido. A mulher pensou consigo mesma: 'Quem é capaz de ajudar esses infelizes melhor do que eu, que tive minhas próprias desgraças?' E demorou-se algum tempo confortando-os.
Em seguida, prosseguiu na busca de uma casa que nunca conhecera a tristeza. Porém,  em todos os lugares, nas choupanas ou nos palácios, ela só encontrava histórias de tristeza e desgraças. Ao final, ela se envolveu tanto em amenizar a dor das outras pessoas que esqueceu a busca da semente de mostarda, não percebendo que acabara por expulsar a tristeza de sua vida.

 Texto adaptado

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ESTUDAR É PRECISO


Estudar é preciso.
Três dias depois acharam Jesus no Templo, sentado no meio dos rabinos. Ele os escutava, e também lhes fazia perguntas.
 Lucas 2.46
Essa passagem das Escrituras me inspira muito a estudar a PALAVRA DE DEUS e aprender como viver uma vida que agrada a Jesus.
Durante nossas aulas de orientação de estudos costumo pedir aos alunos que façam perguntas. o que significa isso? quando isso aconteceu? como isso se dá? Onde aconteceu? quem estava envolvido? para que eu preciso aprender isso? em que situação vou aplicar isso? quais as causas disso? E as consequências ?quem é beneficiado? Se eu tiver determinada atitude, vou ajudar ou atrapalhar?
Muitas vezes lemos um texto, mas não nos detemos nele, não nos aprofundamos. É preciso fazer perguntas ao texto bíblico, saber em que contexto ele foi escrito, o que nos diz pessoalmente. 
Vamos usar como  exemplo um versículo do salmo 16( um dos meus  preferidos)
"Senhor, tu és a minha porção e o meu cálice; és tu que garantes o meu futuro. "Salmos 16:5
O salmista faz uma declaração a Deus, dizendo que é Ele  quem garante o futuro. Quanta confiança!
Quando perguntamos a alguém quem lhes garante o futuro, muitos falam que é Deus, mas quando nos aprofundamos na questão, vemos que a pessoa é insegura, tem medo de perder o emprego, de não casar, de não ter dinheiro  suficiente para a velhice, entre outros medos. Ter medo do futuro faz parte da vida.
Que certeza temos do nosso futuro?
Nenhuma.
Nossa vida é como uma neblina, que dura apenas algumas horas, quando muito.” Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.” Tiago 4:14
É tempo de ler a Bíblia, estudá-la com profundidade. Façamos como Jesus, que fazia muitas perguntas...
Ótima semana e que Deus abençoe a todos!
Fátima

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

As palavras que ninguém diz


CUIDADO COM O VOCABULÁRIO NA HORA DE  ESCREVER

Escrever bem não é escrever difícil. Não empregue palavras complicadas ou supostamente bonitas, principalmente se você não tem certeza do significado delas.O vocabulário deve ser adequado ao tipo de texto que se pretende redigir, e de acordo com seu interlocutor. No caso de redações escolares, deve-se empregar a norma padrão ou norma culta da língua. Evite erros gramaticais, ortográficos, gírias, palavrões, pois não condizem com a boa linguagem. Acima de tudo, seja claro e objetivo em sua maneira de escrever.
O texto “ As palavras que ninguém diz” de Carlos Drummond de Andrade é um exemplo de crítica ao uso de palavras de difícil compreensão ( basta observar o título do texto) para um texto que tem como objetivo a COMUNICAÇÃO entre quem escreve e quem lê.

Boa leitura! ... e não tente descobrir o significado de algumas palavras. Elas não são encontradas nem nos melhores dicionários. Palavra de quem já fez a pesquisa.

AS PALAVRAS QUE NINGUÉM DIZ

Carlos Drummond de Andrade

Sabe o que é diadelfo? Não sabe. É isso aí: ninguém aprende mais nada na escola, não há professor que ensine o que é diadelfo. Entretanto, basta você sair por aí, na Gávea, e dá de cara com pencas de diadelfos. Tão fácil distingui-los. Pelo visto, sou capaz de jurar que você também nunca experimentou a emoção do ilapso. Ou por outra: pode até ter experimentado, mas sem identificá-lo pelo nome. Não alcançou a maravilhosa consciência de haver merecido o ilapso. Conheci um nordestino que na mocidade exercera a profissão de ultor, e que ignorava o que é ultor: como é que pode ser tão mau profissional?

Praticamente, as coisas deixaram de ser nomeadas na boca dos falantes. O vocabulário azulou. São incapazes de reconhecer o que é beltiano, e mais ainda de qualificá-lo. Paranzela, já ouviu falar? Conhece entre suas relações alguém que algum dia lhe falou em oniquito? Se vou ao Number One e peço alfitetes, pensam que estou louco, acham que eu quero comer alfinetes. Não adianta argumentar que, como paguilha, faço jus à maior consideração: de resto, sabem lá o que seja paguilha?

Olhe, não é só a piara que ignora tudo, inclusive que ela é piara. Os da alta, é a mesma coisa. Participei de umas boedrômias em certa mansão do Cosme Velho, e pude verificar que todos, satisfeitíssimos com o que faziam, estavam longe de imaginar que tudo aquilo que se passava em torno da piscina eram boedrômias, autênticas boedrômias. Uma situação de poslimínio é absolutamente indecifrável para muitos doutores que conheço. E quantos só dormem sossegados se têm um talambor a protegê-lo, desconhecendo embora que instalaram um talambor em casa?

Menino, você gosta remuito de siricaia e não sabe o que é siricaia e o que é remuito? Santa ignorância! Mas que o seu pai, professor ilustre pratique o harpaxismo e nem desconfie de ser harpaxista, meus pêsames às codornas. Lamentável ainda, a incontinência de seus borborigmos em reuniões sociais, pois não?
Quanta gente por aí, precisando de auriscálpio, e se aconselho que procure obter um, fica perturbada, imaginando coisas... Chega a manifestar aversamento, sem mesmo desconfiar do que seja aversamento. De português não aprendem um pigalho. Aventure-se alguém, numa roda seleta, a falar em cristadelfos. Os que se julgam mais informados pensarão que nos referimos a porcelanas de Delft.

Pessoas que adoram determinados pitéus, não os visita a mínima noção de gamararologia (não quer dizer que estejam gamadas, é outra coisa muito diferente). Dispomos de alguns estratólogos, a quem ninguém trata pela correta denominação, e se esta for mencionada, haverá quem supunha tratar-se de peritos em rodoviarismo ou em extratos de contas. Fui cumprimentar uma campeã de tênis, chamando-a lindamente de vitrice, e ela abespinhou-se. Achou talvez algo de venéfico no vocábulo. Sabe tênis e não sabe o idioma.

Vamos dar uma volta seral? Propus a outra moça, que arregalou os olhos. Não houve meio de convencê-la de que pretendia levá-la por aí, sob a paz das estrelas. Imagine se eu lhe propusesse usar subsiles. Ainda que eu aplicasse o máximo de catexe, não conseguiria nada. E talvez ela até chamasse a polícia.


Bem, não estou exagerando. Você que me ouve, sabe(pelo menos isso) que eu evito toda e qualquer espécie de cinquete. Ah, também não sabe o que é cinquete? Era de se esperar. Não posso falar que sua cabeça mais parece uma abatiguera, porque a bem dizer, você nunca plantou nada aí, e em conseqüência nada aí se pode colher. Certas coisas a gente vê logo, não carece ser mirioftalmo. Passe bem, ignaro, ou melhor, passe mal!

Falar difícil



CUIDADO COM O VOCABULÁRIO...

O pai estava preocupado porque a filha não tinha coragem de contar ao noivo a sua precária condição cardíaca.
Assim, na primeira chance, o pai chamou-o para uma conversa:
- Luís, preciso te contar uma coisa...
- Pode dizer, sogrão...
- Olha, é bom  saberes desde  já.... minha filha tem uma angina profunda.
E o noivo, esforçando-se para usar um vocabulário à altura:
- Não tem problema, sogrão, eu também sofro de condromalácia.

????...

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DISTORÇÕES


DISTORÇÕES

Na transmissão oral, preconceitos, preocupações, sentimentos integram-se à mensagem recebida e juntam-se aos maus hábitos para distorcer o que se ouve. A seguir, citamos um exemplo que ilustra perfeitamente tal situação:

CAPITÃO AO SARGENTO AJUDANTE:
- Sargento, dando-se amanhã um eclipse do sol, determino que a companhia, em uniforme de campanha, esteja formada, no campo de exercício, onde darei explicações em torno desse raro fenômeno que não acontece todos os dias. Se chover, nada se poderá ver. Nesse caso, a companhia ficará dentro do quartel.

SARGENTO AJUDANTE AO SARGENTO DO DIA:
- Sargento, de ordem do meu capitão, amanhã haverá um eclipse do sol, em uniforme de campanha. Toda a companhia deverá estar formada no campo de exercício onde o capitão dará as explicações necessárias, o que não acontece todos os dias. Se chover, o fenômeno será mesmo dentro do quartel.

SARGENTO DO DIA AO CABO:
- Cabo, o nosso capitão fará amanhã um eclipse do sol, no campo de exercício. Se chover, o que não acontece todos os dias, nada se poderá ver. Em uniforme de campanha, o capitão dará as explicações necessárias sobre esse raro fenômeno dentro do quartel.

CABO AOS SOLDADOS:
- Soldados, amanhã, para receber o eclipse do sol que dará explicações necessárias sobre o nosso capitão, ocorrerá o raro fenômeno em uniforme de campanha no campo de exercício. Isso se chover dentro do quartel, o que não acontece todos os dias.
(Texto adaptado de “A técnica da Comunicação humana” de J. R. Witaker Penteado)


domingo, 8 de setembro de 2013

AS TRÊS PENEIRAS

AS TRÊS PENEIRAS





Crivo das três peneiras
            Olavo  foi transferido de setor. Logo no primeiro dia, para fazer média com o novo chefe, disse-lhe:
           ¾ Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram-me que ele...
Nem chega a terminar a frase, e Juliano, o chefe, o interrompe:
            ¾ Espere um pouco, Olavo  . O que você vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?
          ¾  Peneiras? Que peneiras, chefe?
            ¾ A primeira, Olavo, é a da Verdade. Você tem certeza de que esse fato é  verdadeiro?
         ¾   Não... Como posso saber? Foi o que me contaram, mas acho que...
            E, novamente, Olavo é interrompido pelo chefe.
           ¾ Então sua história já vazou a primeira peneira. Vamos para a segunda que é a da Bondade. O que você vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?
           ¾ Claro que não! Deus me livre, chefe! ¾ diz Olavo assustado.
             Então ¾ continua Juliano ¾ sua história vazou a segunda peneira também. Vamos à terceira, que é a da Necessidade: você acha mesmo necessário me contar esse fato ou passá-lo adiante?
            ¾ Não, chefe. Só de passar pelo crivo dessas peneiras, já vi que não sobrou nada do que eu ia contar ¾ admite Olavo, surpreendido.
            ¾Pois é, Olavo. Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se os fofoqueiros usassem essas peneiras? Da próxima vez que surgir um boato por aí, submeta-o ao crivo das três peneiras:  Verdade, Bondade e Necessidade, antes de obedecer ao primeiro impulso de passá-lo adiante.
Lembre-se:
Pessoas inteligentes falam sobre ideias.
Pessoas comuns falam sobre coisas.
Pessoas medíocres falam sobre pessoas.      
Autor desconhecido.

CONQUISTANDO UM CORAÇÃO



CONQUISTANDO UM CORAÇÃO



Hoje é domingo, estou meio melancólica, acho. Talvez por isso tenha encontrado algumas verdades neste texto do Veríssimo.


Conquistando um coração.

Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele,  vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração  passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade,
a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você


Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O POVO


O POVO
           
            Não posso deixar de concordar com tudo o que dizem do povo. É uma posição impopular, eu sei, mas o que fazer? É a hora da verdade. O povo que me perdoe, mas ele merece tudo que se tem dito dele. E muito mais.
            As opiniões recentemente emitidas sobre o povo até foram tolerantes. Disseram, por exemplo, que o povo se comporta mal em grenais. Disseram que o povo é corrupto. Por um natural escrúpulo, não quiseram ir mais longe. Pois eu não tenho escrúpulo.
            O povo se comporta mal em toda a parte, não apenas no futebol. O povo tem péssimas maneiras. O povo se veste mal. Não raro, cheira mal também. O povo faz xixi e cocô em escala industrial. Se não houvesse povo, não teríamos o problema ecológico. O povo não sabe comer. O povo tem um gosto deplorável. O povo é insensível. O povo é vulgar.
            A chamada explosão demográfica é culpa exclusivamente do povo. O povo se reproduz numa proporção verdadeiramente suicida. O povo é promíscuo e sem-vergonha. A superpopulação nos grandes centros se deve ao povo. As lamentáveis favelas que tanto prejudicam nossa paisagem urbana foram inventadas pelo povo, que as mantém contra os preceitos da higiene e da estética.
            Responda, sem meias palavras: haveria os problemas de trânsito se não fosse pelo povo? O povo é um estorvo.
            É notória a incapacidade política do povo. O povo não sabe votar. Quando vota, invariavelmente vota em candidatos populares que, justamente por agradarem ao povo, não podem ser boa coisa.
            O povo é pouco saudável. Há, sabidamente, 95 por cento mais cáries dentárias entre o povo. O índice de morte por má nutrição entre o povo é assustador. O povo não se cuida. Estão sempre sendo atropelados. Isto quando não se matam entre si. O banditismo campeia entre o povo. O povo é ladrão. O povo é viciado. O povo é doido. O povo é imprevisível. O povo é um perigo.
            O povo não tem a mínima cultura. Muitos nem sabem ler ou escrever. O povo não viaja, não se interessa por boa música ou literatura, não vai a museus. O povo não gosta de trabalho criativo, prefere empregos ignóbeis e aviltantes. Isto quando trabalha, pois há os que preferem o ócio contemplativo, embaixo de pontes. Se não fosse o povo nossa economia funcionaria como uma máquina. Todo mundo seria mais feliz sem o povo. O povo é deprimente. O povo deveria  ser eliminado.
                                                                                  Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

MÃOS DADAS





Mãos Dadas
(Carlos Drummond de Andrade)

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente


UM MOVER DE OLHOS


UM MOVER DE OLHOS


Este soneto compõe a figura ideal da mulher: delicada, submissa, discreta, sorriso brando.
Apesar de toda essa fragilidade aparente, ela consegue aprisionar o coração do poeta.

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

                                                                                                                                  ( Camões)

À DINAMENE



Homenagem do poeta à sua amada Dinamene

Alma minha gentil que te partiste


Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Autoria de Luís Vaz de Camões

EU CANTAREI DE AMOR

Por mais que o poeta seja competente para criar versos, seja genial, ele não consegue explicar o amor em suas várias faces, materializado na beleza inatingível da mulher que o desprezara.

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, sospiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigurosa
Contentar-m'-ei dizendo a menos parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

Camões

BUSQUE AMOR



Busque amor
CAMÕES

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei por quê.


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